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11 dezembro 2020

Ricardo Reis, "Põe quanto és/ No mínimo que fazes"

 «Deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero»
(Páginas Íntimas e Auto Interpretação, p.393)


Fernando Pessoa estabelece datas distintas para o "nascimento" de Ricardo Reis. Primeiro afirma, de acordo com o texto de Páginas Íntimas e de Auto- Interpretação (p.385) que este nascera no seu espírito no dia 29 de Janeiro de 1914:
«O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reação momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, que se ia desenvolvendo.».

 
Mais tarde, na carta a Adolfo Casais Monteiro (ver Manual) datada de 13 de janeiro de 1935, altera a data deste nascimento afirmando que Ricardo Reis nascera no seu espírito em 1912.

























Biografia de Ricardo Reis
No horóscopo que Fernando Pessoa dele fez,  nasceu em  19 de Setembro de 1887, em Lisboa, às 4.05 da tarde. Na carta a Adolfo Casais Monteiro (reproduzida no Manual) altera a cidade natal de Ricardo Reis de Lisboa para o Porto.
Médico de profissão, monárquico, facto que o levou a viver emigrado alguns anos no Brasil, fora educado num colégio de jesuítas, logo, numa formação clássica, latinista e de princípios conservadores, elementos que são transportados para a sua conceção poética. Domina a forma dos poetas latinos e proclama a disciplina na construção poética.
Ricardo Reis é o heterónimo mais parecido fisicamente com o seu criador - é moreno, de estatura média, anda meio curvado, é magro e tem aparência de judeu português.
É adepto do sensacionismo, como o mestre das sensações - Alberto Caeiro, mas ao retomar as formas e ideias clássicas (neoclássicas), manifesta esse sensacionismo de modo distinto; Fernando Pessoa refere em Páginas Íntimas e Auto Interpretação(p.350):
«Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Ricardo Reis tem outra disciplina diferente: as coisas devem ser sentidas, não só como são, mas também de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regras clássicas.»


Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.
Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.
Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece

Ricardo Reis

Nos seus poemas há uma valorização da matéria, do corpo, da natureza, da realidade exterior, como na lição de Alberto Caeiro, o mestre de Fernando Pessoa e de todos os heterónimos e, antes dele, de Cesário Verde.

Enquanto poeta de educação clássica, Ricardo Reis faz muitas referências aos deuses da Antiguidade greco-latina, e privilegia as formas poéticas da antiguidade: a ode, o epigrama e a elegia.

Segue a lição poética de Horácio, o grande poeta latino da época do imperador Otávio Augusto, no auge do Império Romano, mas também tem afinidades com os gregos; segundo FP, é :“um latinista por educação alheia e um semi-helenista por educação própria”.
Segundo o preceito clássico, os poemas não devem apenas ser belos, mas  agradáveis, suaves, tranquilos, despertando sentimentos brandos (e não emoções e paixões), o que RR procura seguir: “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira rio./ Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos/ Que a vida passa"

Para Horácio a morte é a grande mestra da vida, sendo ela certa, importa é aproveitar o dia, colher o dia que passa, carpe diem, como se fosse o último:

Não procures, Leucónoe, - ímpio será sabê-lo -
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
Melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp'rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

Horácio

Tradução de David Mourão-Ferreira in
Vozes da Poesia Europeia – I, Colóquio Letras n.º 163,
Janeiro - Abril 2003


As odes de Ricardo Reis recorrem quase sempre aos deuses da mitologia grega. Este paganismo, de caráter erudito, afasta-se da convicção de Alberto Caeiro de que não se deve pensar em Deus. Para Ricardo Reis, os deuses estão acima de tudo e controlam  o destino dos homens: Acima da verdade estão os deuses./Nossa ciência é uma falhada cópia /Da certeza com que eles /Sabem que há o Universo. 


Afinal, Ricardo Reis diz-nos que é importante:

- Aceitar a relatividade e a efemeridade da vida que foge, a fugacidade de todas as coisas

- Procurar uma sabedoria assente numa vida sem arrebatamentos, na elevação, na procura de perfeição, na satisfação baseada nos prazeres muito simples (o que requer uma longa aprendizagem)

- Sublimar a angústia e a tristeza da condição trágica do homem, da sua mortalidade, da efemeridade da vida, do peso do tempo

- Encarar pacificamente - com elegância, elevação e ilusória liberdade - o Destino/a vontade dos deuses, aquilo que é inevitável

As PARCAS (conduzem o destino)
Cloto (na mitologia romana=Nona) -  fia o destino dos homens 
Láquesis (equivalente à romana Décima): dirige o curso da vida.
Átropos (equivalente à romana Morta): corta o fio da vida


Créditos:
Blogue Fernando Pessoa
Casa Fernando Pessoa

10 dezembro 2020

Ricardo Reis, conceitos; linguagem e estilo

As moiras   Na mitologia grega eram as três irmãs que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos
    Sob a leve tutela/De deuses descuidosos, /Quero gastar as concedidas horas /Desta fadada vida. / Nada podendo contra / O ser que me fizeram, / Desejo ao menos que me haja o Fado /Dado a paz por destino. /Da verdade não quero/ Mais que a vida; que os deuses /Dão vida e não verdade, nem talvez /Saibam qual a verdade.
      Ricardo Reis, in "Odes"    
Porque a vida é breve e os deuses comandam é necessário aproveitar cada hora na ilusão da liberdade, porque só temos de nosso o presente:

Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

Ricardo Reis


Na procura do equilíbrio, da serenidade e da moderação, o poeta reintroduz tópicos poéticos clássicos, que tinham sido muito apreciados pelos poetas neoclássicos do século XVIII (árcades, da Arcádia):
- Locus Amoenus (local ameno)
- Carpe Diem (aproveitar o momento)
- Aurea Mediocritas (equilíbrio de ouro)

Lê a informação seguinte:
 "Aurea Mediocritas é uma designação latina que podemos encontrar numa das Odes (II, 10, 5) de Horácio e que expressa a ideia de que só é feliz e vive tranquilamente quem se contenta com pouco. [N]estes poemas entre a variedade de temas tratados, que vão desde o amor e amizade aos valores morais de Roma, têm especial relevo os que se inspiram no carácter efémero da vida, no prazer, na inconstância da Fortuna e nas formas de resistência. Especificamente nestes assuntos o autor procurou demonstrar a conveniência do seguimento de um ideal de Mediania Sensata (Aurea Mediocritas), extremamente vantajoso para que se possa alcançar a felicidade."

 Aurea Mediocritas. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012.
 .

 Já o termo "Locus amoenus" (lugar ameno)  foi usado na literatura e na pintura por oposição a 'locus horrendus'. Seria um local de segurança e tranquilidade, situado quase sempre fora dos limites citadinos, em geral, paisagens tranquilas e por vezes bucólicas.* Representa igualmente o regresso ao 'paraíso perdido'.

Bucólica - campestre, pastoril, ligada à vida rural. 

 Representação da Arcádia, Peloponeso, na Grécia (motivo de inspiração)

Linguagem e estilo:

A poesia de Ricardo Reis
- privilegia a ode, o epigrama e a elegia, formas poéticas clássicas
- métrica - verso irregular e predominantemente decassilábico (10 sílabas)
- verso branco (sem rima, como nos clássicos)
- apresenta um estilo muito depurado e elegante, marcadamente erudito (culto):
  • . usa a inversão da ordem lógica da frase (hipérbato)
  • . recorre a vocábulos latinos - latinismos
  • . refere amplamente nomes e mitos da antiguidade
- termos associados às temáticas do destino, da morte e da vida, bem como signos associados à natureza e ao fluir do tempo - rio, rosa, sol, dia/noite; o jardim também tem expressão e simboliza a presença divina na terra, uma representação do cosmos em miniatura, mas também a vontade humana. Na análise dos sonhos, o jardim traduz a riqueza interior .


Alberto Caeiro - "O Guardador de Rebanhos"

 
- vê no asas-da-fantasia a relação entre Caeiro e Cesário Verde -

De acordo com o pedido, deixo o 1º poema de "O Guardador de Rebanhos" que vos permite apreciar mais claramente a ideia discutida em aula: «Caeiro - o pastor por metáfora»
Pintura de Vicent van Gogh

I - Eu nunca guardei rebanhos,


I
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.


Com um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.


Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.


Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.


E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.


Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.


Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. 
Saúdo-os e desejo-lhes sol
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar, 
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Alberto Caeiro 

8-3-1914

“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 21.

“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.


Fonte: Arquivo Pessoa

Alberto Caeiro e a Natureza

Ficam alguns versos, não presentes no Manual, mas muito relevantes para perceber a poesia de Alberto Caeiro. Destaca-se, em cada poema, o conjunto de versos mais fortes e fáceis de lembrar.
 Quinta da Aguieira,.N. Santos
Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.
Se há outras matérias e outros mundos Haja.
 In Poemas Inconjuntos

 III 
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde
.
 

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas,
É o de quem olha para árvores
,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos…

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem não anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…
 


In O Guardador de Rebanhos
 XXXIX 
O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
 

Porque o único sentido oculto das cousas 
É elas não terem sentido oculto nenhum, 
 
É mais estranho do que todas as estranhezas 
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser 
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

In O Guardador de Rebanhos

Quinta da Aguieira. Noémia Santos
XXIII
O meu olhar azul como o céu 
É calmo como a água ao sol. 
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta... 

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo... 
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo, 
Eu sentiria menos flores no prado 
E achava mais feio o sol ...
Porque tudo é como é e assim é que é, 
E eu aceito, e nem agradeço
,
Para não parecer que penso nisso...)

 In O Guardador de Rebanhos
XXXI 
Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes 
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque não me aceito a sério
Porque só sou essa cousa odiosa, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma...

XXXVIII
Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens

Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu, 
E, nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural — mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E depois tudo o mais que não há.

Alberto Caeiro
in O Guardador de Rebanhos
 Quinta da Aguieira. Noémia Santos

09 dezembro 2020

25 novembro 2020

Fernando Pessoa - os heterónimos

Para fechar a questão da heteronímia, não esqueças de ver e sintetizar, no caderno, o Áudio e o Vídeo cujas ligações aqui ficam (p/ ENSINA RTP). 

Cada turma já conhece um deles, do Exercício de Compreensão do Oral. Agora é só sistematizar!

Fernando Pessoa: apresentação dos principais heterónimos

Fernando Pessoa: apresentação dos principais heterónimos

Fernando Pessoa e os seus heterónimos

Fernando Pessoa e os seus heterónimos

18 novembro 2020

Pessoa(s) - O Livro do Desassossego

 «Eu nunca fiz senão sonhar»

 Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para a rua do meu sonho, esqueço a vista no seu movimento. (...) 

A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linhas e peões de xadrez – com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo – mas tenho pena de o não fazer... e alinho na minha imaginação, confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas. 

Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes (poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições – irrealizável infelizmente!). Outros moram em aldeias e vilas lá para as fronteiras de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços emotivamente... E quando sonho isto, passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando... quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real, incomparável. (...) 

Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores. Certos quadros, sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi muitas horas – passaram a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais desenhada ao pé daquele bosque, ao luar que havia numa pequena gravura dum quarto onde dormi já não em pequeno! Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de outra ordem de angústia. Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito de meus desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado1 com a direção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto!»

Bernardo Soares, Livro do Desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, (ed. Richard Zenith), 7.ª ed., Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, pp. 110-112

16 novembro 2020

Gramática - Revisões


Interrompemos as publicações dos textos, para lembrar as Revisões gramaticais - Voz Ativa>Voz Passiva AQUI!

10 novembro 2020

Fernando Pessoa e «eu» - memórias de infância: um livro e longas gargalhadas

Quando tinha 3 anos ia com este livro para todo o lado

Eu gostava tanto dele que decorei todas as páginas e punha-me a folheá-lo enquanto dizia o que estava escrito. 

Os meus pais dizem que quem me via com o livro pensava que eu sabia ler porque até mesmo saltando páginas eu acertava sempre no que estava escrito. 

Quando achei novamente este livro, há uns tempos, continuava a lembrar-me das músicas que a minha mãe fazia quando mo lia e das longas gargalhadas que dava na companhia deste livro.

Pedro D. 

Fernando Pessoa e «eu» - memórias de infância - A breve história de um carrinho de brincar

 A breve história de um carrinho de brincar

Lembro-me ... em pequeno, todos temos as nossas grandes paixões e sonhos. A minha? Carros. É uma paixão e uma admiração que tenho por eles desde pequeno e que ainda hoje perdura.
 

Tenho uma memória que me sabe muito bem lembrar de vez em quando, a memória de como começou a minha coleção de carros de hoje quase uma centena de miniaturas. Houve uma noite em que estávamos a jantar em família, lembro-me de alguém que tinha um carro novo e que a conversa dos carros veio ao de cima. No decorrer da conversa, ele falou-me em grandes eventos de carros: corridas, exposições, festivais, eventos desse género.

Bem... Devo ter andado quase um mês a chateá-lo para o convencer a irmos a um evento desses, na inocência de uma criança de simplesmente descobrir um mundo novo. Ele finalmente cedeu! Fomos a uma exposição de carros que costuma haver todos os anos em Lisboa. 

Lembro-me de chegar lá e ficar quase dois minutos só a olhar para o salão. Era enorme! E era como o "paraíso dos carros", um sítio onde o que eu na altura chamava de "carros rápidos" se encontravam todos juntos.

Lembro-me também de sentir aquela satisfação que nos dá quando um pequeno sonho se torna realidade. Como uma criança e um grande admirador de carros, o que me interessou mais foram as miniaturas dos carros que se podia comprar. Lembro-me de olhar para um carro da Ford muito colorido e de muito insistir mais uma vez com o meu pai para mo comprar. Ele lá cedeu, mas não conseguiu deixar de sorrir com o sorriso que eu expressei na altura, tenho uma perfeita memória desta situação.

Esta miniatura que levei para casa, para além de me trazer de volta à minha infância, marcou o início da minha coleção de miniaturas de carros, que hoje está quase numa centena... 

Sabe bem lembrar os tempos de criança.

Guilherme F, 12°B

Fernando Pessoa e «eu» - memórias de infância - Nova York

Aos 7 anos de idade, há 10 anos atrás, fui pela primeira e única vez a New York. 

Possuir familiares em outros países é muitas vezes a chave para assim os visitarmos, e foi o que me aconteceu, ainda bastante novo fui visitar as Américas. Passei por New Jersey onde os meus familiares residiam, fiquei uma noite e o dia seguinte em New York, com o posterior retorno a New Jersey onde passei mais alguns dias. 

Uma experiência incrível, que mesmo depois de tanto tempo, ainda apresenta detalhes com um brilho tão vívido e intenso. 

Recordo-me de tentar olhar para o topo dos edifícios ao caminhar pelas ruas de New York e ficar com tonturas de tão altos que são. As ruas preenchidas pela multidão, com os táxis a consumir as estradas. E aquela famosa estátua esverdeada, representante da liberdade, que de longe fiquei a admirar. 

Foi nessa noite que adquiri uma certa paixão por viagem, uma chama por descobrir e viajar, conhecer novos horizontes no globo, mesmo que da visão de uma criança de 7 anos. Após essa noite de vivências por algumas das ruas mais famosas da cidade, fomos passar a noite a um hotel, retornando a New Jersey no final do dia seguinte. 

Embora já não seja certo, este pequeno globo, já velho, de New York terá sido adquirido numa das duas cidades que pisei nas Américas, acabando por ter como destino a minha mesa de cabeceira, para que me possa lembrar desses dias de outrora, até depois do amanhã e no agora. Outrora lá voltarei.

Henrique C., 12°B, novembro, 2020

 

Fernando Pessoa e «eu» - memórias de infância: o "Arturo"

Desde sempre e como era hábito, a minha família ia às feiras medievais, especialmente à de Óbidos. Foi lá que comprei o “Arturo” - o nome que dei ao meu novo amigo, um apito em formato de pássaro, de barro que, quando mergulhado em água, ao soprar pela abertura dava um som bonito de um pássaro real, como se se tratasse de um assobio cantado. 

Fiquei fascinada, ainda por mais nunca soube assobiar, então o Arturo era, portanto, um elemento que sempre me acompanhou para realizar esse desejo que tinha. 

Era também como um “walkie-talkie” pois, por sorte, eu e o meu irmão mais novo sempre tivemos uma relação de grande união e por isso, sempre que íamos passear cada um de nós levava um para o caso de incidentes inesperados (o que era muito habitual do meu irmão) ou então só mesmo para chamarmos a atenção, pois éramos muito orgulhosos do nosso apito, e - como qualquer criança - fazer barulho era o que melhor sabíamos fazer.

C. de Sousa, 12ºB

Fernando Pessoa e «eu» - memórias de infância: berlindes e piões

 Começamos hoje a publicação de textos motivados pela poesia de Fernando Pessoa sobre a infância - o modo como a vivemos ou como hoje julgamos que a vivemos: «Outrora hoje».

 A minha infância sempre foi muito ligada ao campo e à natureza. As tecnologias, na altura menos avançadas, nunca tiveram muita importância nessa fase mais antiga da memória. Na escola primária que frequentei havia dois tipos de pessoas, as que eram apenas crianças a viver o momento e as que ficavam a um canto, não querendo demonstrar ter 7 ou 8 anos. Eu, felizmente, era do primeiro tipo. Chegava a casa com os joelhos sujos e por vezes com feridas de jogar à apanhada tão convictamente. Os meus pais não se importavam muito porque as nódoas eram apenas um problema temporário e eu era uma pequenina feliz. 

No 1º ano de escolaridade surgiu uma nova moda, embora já antiga, a moda dos berlindes. Levávamos para a escola, não só a nossa coleção como também a dos nossos pais. Escavávamos buracos e desenhávamos arenas e círculos no chão para podermos fazer competições e deixar os berlindes rebolar, no final do jogo trocávamos berlindes com quem ganhasse. Era uma brincadeira inocente, ecológica e de confraternização entre miúdos de todas as idades.  

No ano seguinte, a moda passou a ser dos piões. Os tamanhos eram bastante variados, apenas não mudava o cordão, que os fazia girar e a cor do próprio objeto, castanha clara como a madeira após ser lixada. De modo a conseguir identificá-los, personalizámos o pião ao gosto do dono, normalmente pintávamos com os vernizes das mães ou com guache. Para que os piões ganhassem mais força e velocidade, pedíamos aos pais que substituíssem o bico por um prego afiado.  


Foi uma fase de pequenez cheia de aprendizagens, mas sobretudo de novas vivências e amizades, que sem dúvida ficarão nas boas recordações da memória. Alegremente direi que foram as cicatrizes, os piões, os berlindes e muitas outras brincadeiras que me marcaram e não os telemóveis e computadores.

C. Nascimento, 12ºB

04 novembro 2020

Infância - «Outrora agora»

"Quando as crianças brincam"


 Imagem:https://www.jones-terwilliger-galleries.com/Artist_Enlargements/Hartley/hartley5.html