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26 abril 2018

Poetas contemporâneos e os seus leitores

Começamos hoje  a publicar os poemas selecionados pelos vários pares e as respetivas propostas de leitura. Estas publicações alargam e substituem a informação dispersa em vários comentários. Os contributos são publicados a par dos textos, de acordo com a autoria do trabalho.

Abaixo el-rei Sebastião
(Poema no Manual) 
É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

                                                           Manuel Alegre
Manuel Alegre retrata o mito Sebastianista, ou seja como algo que se alojou no pensamento nacional como uma erva daninha que nos impossibilita de mudar e agir.
El-rei Sebastião simboliza, neste poema, o sonho e a loucura como na Mensagem, mas também a espera interminável da mudança, sendo então associada a uma dupla adjetivação: «a guitarra fantástica e doente / que alguém trouxe de Alcácer Quibir», esta guitarra que trouxeram de África «dá-nos música» e cria-nos uma ilusão fantástica e doente porque nos consome e não nos deixa atuar. No poema existe uma anáfora: «é preciso enterrar…/ é preciso dizer…/ é preciso quebrar/ é preciso bater…/ é preciso enterrar» que mostra a urgência da mudança, como algo indispensável.
D. Sebastião «está morto» e enterrado no passado: «Deixai em paz el-rei Sebastião»; devemos deixar de ficar focados no passado, pois o mesmo impossibilita-nos de viver o futuro, tema também retratado na peça Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett. D. Madalena é o espelho desta situação, vivendo focada em D. João de Portugal, seu passado, não vivendo o seu presente e o seu futuro como poderia viver.
Manuel Alegre critica a sua sociedade repressiva dos anos 60 através do poema, encorajando-a a deixar D. Sebastião no passado e mudar, fazer com que «na nossa voz a voz do vento» soe ou, seja que tenha mais força a mudança do que os mitos e ideias fantásticas, tornando a vida mais real.
Para Manuel Alegre os poetas devem impulsionar esta ideia, são aqueles que devem colocar «um punhal dentro da canção», têm o dever de impelir esta mudança enfrentando medos.
Em suma, num tempo de inatividade, de sonhos impossíveis onde não há revolta, Manuel Alegre esperançoso, acredita que ainda vamos a tempo de mudar. A poesia tem esse papel, o de abrir os olhos à sociedade para a fazer mudar.

Aos Poetas

Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.

                                                                     Miguel Torga, in 'Odes'
Aos poetas
Miguel Torga no poema «Aos Poetas» faz uma alusão à Fábula da cigarra e da Formiga de Esopo, escritor da Grécia Antiga, do século VI a.C., comparando os poetas às cigarras. À imagem delas os poetas são aqueles que têm o dever de cantar para a sociedade, tornando-a mais bela. A referência à cultura cigana remete-nos para uma ideia de mudança, para os que não se deixam ficar no mesmo sítio pois o povo cigano é nómada.
Segundo Miguel Torga, são os poetas que têm «asas sonoras», que têm o dever de cantar sobre a amizade, a paz e o amor universal, «de todos os feitios e maneiras», pois somos todos «Crias de Adão e Eva» e «Homens da torre de Babel», ou seja de todas as línguas e culturas, independentemente «Da cor que o sol lhes deu à flor da pele». O sujeito poético expressa a sua opinião acerca da natureza da poesia e do ofício de poeta: «Somos nós …» os poetas quem tem esse dever - o de realçar a nossa comum humanidade, a fraternidade universal. 

Emprego e desemprego do poeta 
 Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão (1)

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

(1) figura bíblica, comum às três grandes religiões; irmão de Moisés.

Emprego e desemprego do poeta
No poema de Ruy Belo, existe uma crítica a algum tipo de poetas. Segundo o sujeito, o poeta deve deixar crescer o poema, e não se desculpar para não o fazer, uma vez que a poesia está em tudo o que vemos. O poeta deve escrever pelo amor ao seu ofício, não para «Publicar versos em jornais que tiram milhares» ou «chegar mesmo a fazer versos a pedido».
Ruy Belo faz uso de nomes de várias poetisas importantes da Antiguidade ao século XVI (casos da humanista portuguesa Públia Hortênsia de Castro ou da italiana Vittoria Colonna) as quais escreviam pelo gosto de o fazer sendo conhecidas por isso mesmo, instigando os poetas modernos a segui-las enquanto modelo. Existe uma comparação no poema: «o poeta em exercício é como azeite precioso derramado/ na cabeça e na barba de aarão», enaltecendo o poeta, dizendo que o mesmo tem o dom e foi escolhido para a poesia (no Salmo 133,  David apresenta  a cena da unção do sacerdote Arão. O óleo “precioso” para ungir conhecido como “o óleo da santa unção” é derramado na sua cabeça e desce-lhe pelas barbas até às vestes).

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