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12 dezembro 2012

Textos expositivos

Em MENSAGEM há uma interiorização e mentalização da matéria épica, numa atitude contemplativa. (in Lusofonia)


"Os Lusíadas" e a "Mensagem"

Em "Os Lusíadas"o herói épico realiza-se através do plano da viagem, da figura de Vasco da Gama e no plano da História de Portugal, enquanto que na "Mensagem" o poeta apresenta heróis míticos, figuras históricas que funcionam como símbolos e mitos.
O objetivo da pátria em "Os Lusíadas" é a construção de um reino e de um Império material e para isso o herói tem de se ultrapassar a si mesmo, ter esperança, imortalizando-se. Todavia, vários séculos passados, para Fernando Pessoa o objetivo transformou-se num sonho - a procura de "uma Índia que não há" e para isso é preciso que Portugal renasça do "Nevoeiro"em que se encontra.
Assim, enquanto que para Camões o herói é real, para Fernando Pessoa é apenas um mito.

Rita Vicente 12ºA Nº29




Ideias escritas



Enviaram textos de opinião e/ou de análise os seguintes alunos:

Rita, Mariana Mendes, Maria, Linda, Laura, João Desidério, Henrique, Catarina Silvestre, Ana Raquel e Ana Marta.

Confirmem. Vejam se falta alguém.


Peço à Mariana para enviar as fotos do DEBATE em ficheiro de imagem, para publicação.

Em breve, publicarei para lerem e comentarem nas férias.



Com os cartoons também se aprende:







06 dezembro 2012

Leituras

Coletâneas:
Contos Tradicionais
VV, Homenagem ao Papagaio Verde e Outras Histórias de Animais
De autor:
Ana Cristina Silva, A Dama Negra da Ilha dos Escravos
António Torrado, O Homem sem Sombra, adaptação dramática de três contos de Hans Christian Andersen
António Gedeão, História Breve da Lua
Bruno Margo, Sandokan e Bakunine
Igor Bogdanov e Grichka Bogdanov, A Face de Deus
Irene Lisboa, Esta Cidade
Irene Lisboa, Voltar Atrás para Quê
Isabel da Nóbrega, Viver com os Outros
Isabel da Nóbrega, Cartas de Amor de Gente Famosa
J. M. Águalusa, A Substância do Amor e Outras Crónicas
José Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa
José Rentes de Carvalho, O Rebate
Sónia Louro, O Cônsul Desobediente
Stephen Hawking, A Teoria de Tudo
Livros
CONCURSO NACIONAL DE LEITURA
_____________________________________________________
(prova de escola)
7 de janeiro de 2013, 10h00-10h30
Da lista acima, quem quiser concorrer ao Concursos Nacional de Leitura, deverá escolher um destes dois livros:

Secundário
Ana Cristina Silva, A Dama Negra da Ilha dos Escravos
J. M. Águalusa, A Substância do Amor e Outras Crónicas


Outras hipóteses:

LISTA GERAL DO PLANO NACIONAL DE LEITURA - LITERATURA



Síntese informativa

Como percebi que -lamentavelmente - nem todos usam as sínteses do moodle, fica esta informação para encerrar, por agora, este assunto.




ESCOLA SECUNDÁRIA C/ 3º CEB HENRIQUES NOGUEIRA      PORTUGUÊS, 12º

Materiais de apoio ao estudo – síntese informativa

Prof. responsável: Noémia Santos

Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, 1572

Fernando António Nogueira Pessoa, Mensagem, 1934


“Os sonhos e as utopias são indispensáveis à vida das nações como à existência dos homens. »

Como escreveu Pessoa (…) «triste de quem vive em casa, /contente com o seu lar», « triste de quem é feliz! /Vive porque a vida dura. / Nada na alma lhe diz/ mais que a lição de raiz - / ter por vida a sepultura.» (Vitor Manuel Aguiar e Silva)

«E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas ‘daquilo que os sonhos são feitos’ E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal arremedo, realizar-se-á divinamente.» Fernando Pessoa, 1912.


Portugal e Lisboa da segunda metade do Século XVI

Terminado o período das grandes descobertas marítimas, do conhecimento de povos distantes, do traçado dos primeiros mapas modernos, do entusiasmo pelas possibilidades económicas e sociais trazidas pelas viagens, as consequências negativas começam a fazer-se sentir: perda do domínio marítimo, para as marinhas mercantes de outras nações europeias, endividamento externo e aumento do défice, monopólio da coroa e início do poder absoluto, parasitismo da nobreza, ostentação do luxo excessivo, crises agrícolas sucessivas,  crescente nterferência do clero, mormente a partir da criação do Tribunal do Santo Ofício (ou Inquisição; instituição judicial do papado, com poder para prender, julgar e punir as «heresias» e todas as manifestações julgadas contrárias à Igreja Católica), em 1560. Alguns dos alertas para os aspectos negativos da expansão já haviam sido reflectidos pelos escritores portugueses, nomeadamente por Sá de Miranda, nos seus poemas e por Gil Vicente, no Auto da Índia.


Lisboa, como as grandes cidades da Europa, era uma Babel de barcos e de gentes, provenientes de todas as latitudes, numa paleta de línguas e de raças;  pelas suas ruas circulavam marinheiros, mercadores, ourives, aventureiros à procura de riqueza fácil e estímulos variados. Os nobres e os recentemente enriquecidos exibiam as suas roupas faustosas, os seus criados africanos e os seus animais exóticos. Uma multidão de pedintes, andrajosos e larápios enxameava as ruas. Grandeza e miséria ombreavam diariamente.


A nível cultural, o século XVI fora marcado por manifestações científicas, culturais e artísticas de grande valor. A língua portuguesa enriquece-se e renova-se, com o contributo de grandes escritores e estudiosos das línguas clássicas, mormente do Latim; para além da entrada directa de muitas palavras por via erudita – renovação do léxico –, alargam-se as possibilidades semânticas e sintácticas e estabelecem-se as regras da língua nas primeiras Gramáticas, da autoria de Fernão de Oliveira e de João de Barros. Por outro lado, a expansão vai levar a nossa língua a todos os continentes (fazedo com que hoje seja das 4-5 línguas mqais faladas do mundo) e trazer de lá palavras que irão enriquecer ainda mais o português (Cf. Mapa da língua portuguesa, na sala 44). A literatura e as outras artes (pintura, escultura, arquitectura) recuperam a matriz humanista das civilizações da antiguidade clássica – Grécia e Roma – e criam obras que traduzem a beleza, a força e o saber do Homem e da Natureza. Formas literárias clássicas são recuperadas: Sá de Miranda traz de Itália as novas maneiras poéticas, António Ferreira escreve a primeira tragédia, à maneira clássica, em português – A Castro (sobre a morte de D. Inês) e Camões publica Os Lusíadas, já numa fase de transição, chamada maneirismo.

A Literatura de Viagens conhece neste período um grande florescimento: relatos de viagens e do achamento das novas terras, historiografia ligada aos descobrimentos, descrição de espécies, de povos, de costumes.


Depois da comutação da pena de prisão em degredo no Oriente (Goa e Macau), onde desempenhou cargos administrativos e voltou a ser preso, Camões, regressa a Lisboa em 1569. Com o mecenato de D. Manuel de Portugal, filho do Conde de Vimioso, Os Lusíadas são impressos em 1572. Surpreendentemente escapam aos rigores da Inquisição, sendo aprovados pela censura, crê-se que sem grandes cortes. A segunda edição portuguesa sai em 1584, mas essa já não escapa à censura e são dela cortadas as partes consideradas menos ortodoxas em relação à fé ou atentatórias dos bons costumes. Segundo António José Saraiva,  N’Os Lusíadas combinam-se três correntes distintas de ideias: um ideário nacionalista; um ideal religioso e um ideal humanista.


Um ideário nacionalista que tinha por base o sentimento de orgulho triunfalista de um povo consciente de ter concretizado o maior feito conhecido da história do mundo: em menos de um século tinham viajado por toda a Terra, estabelecido portos, feitorias e fortificações em África, na Ásia e na América (do Sul). O Oceano Atlântico era um mar português, o Índico já não tinha segredos, pois estávamos na Índia, na Indonésia, na China e, a partir de meados do século, no Japão, onde fôramos os primeiros ocidentais a chegar. Os portugueses viram e registaram fenómenos naturais desconhecidos, novas constelações (do hemisfério sul) e mostraram que havia antípodas.

Este orgulho e esta consciência de si enquanto nação levam os historiadores portugueses em busca de uma génese ilustre, tão ilustre que justificasse, ampliasse o efeito do presente: Viriato, o guerreiro e, mais, Ulisses o aventureiro mítico como fundador de Lisboa (que teria o primitivo nome de Ulisseia); para cúmulo, a origem remontaria aos deuses: um companheiro de Baco – Luso – seria a génese dos Lusitanos. Para além duma história, Portugal começa a ter uma mítica. Pela primeira vez surge a ideia de uma história de Portugal já não só com significado para o seu povo ou no contexto Peninsular e Europeu, mas de uma visão da história de Portugal associada ao destino da humanidade. O Tratado de Tordesilhas e o carácter transcontinental das nossas rotas, feitorias e possessões sustentava a ideia.


Um ideal religioso – para Camões o inimigo externo de Portugal já não é a Castela; Espanha designa, aliás, a Península. O inimigo é o Mouro, o islamita. Os turcos, muçulmanos, haviam tomado Constantinopla em 1456 e avançavam rapidamente pela Europa aproximando-se de Itália, pois já haviam tomado os Balcãs. O Papa preparava uma nova cruzada. Portugal tinha uma posição estratégica à entrada do Golfo Pérsico favorável a este empreendimento de nova luta contra “o infiel”. Os Lusíadas fazem-se eco deste ideal de cruzada e relacionam-no com o passado de Portugal, nomeadamente com os tempos da fundação, dando destaque ao carácter divino e de missão da Batalha de Ourique. A História de Portugal é apresentada como Cruzada e o poeta exorta D. Sebastião à guerra em África, como defensor, guardião da Cristandade, da Civilização ocidental.


O ideal humanista – O humanismo é a corrente que, a partir dos séculos XV e XVI, irradia da Itália para toda a Europa. O tempo do humanismo foi um tempo de descobertas: da cultura (renovando, fazendo renascer a cultura da antiguidade), da natureza, do homem. «Os Lusíadas são bem uma epopeia humanista, empenhada como está em afirmar as capacidades humanas: a capacidade de realização, a vitória sobre a natureza adversa; o alargamento indefinido dos limites do saber; o direito a aspirar por um amor plenamente feliz – sensual, espiritual e sem pecado; e, finalmente empenhada em declarar que o homem pode determinar-se, construir o seu destino» (Mª Vitalina Leal de Matos). Na visão de António José Saraiva, em Camões «A identificação da Cruzada contra os Mouros com a expansão da Civilização é o ponto de coincidência entre o ideário Cristão e o ideário Humanista». 






Fernando Pessoa   MENSAGEM

Tal como Fernando Pessoa não inventou o Sebastianismo, também não inventou a teoria do Quinto Império. Encontrou-os na tradição portuguesa, peninsular e mesmo judaico-cristã, no caso desta última (a vinda de um Quinto império universal, que não terá fim, na tradição bíblica, do Livro de Daniel) . F. Pessoa altera os quatro impérios antigos que a tradição consagrava, e avança com os quatro grandes momentos da civilização ocidental. Pessoa organiza assim a teoria dos Impérios :

1º - Império Grego  (que sintetizou e ampliou os conhecimentos/a experiência dos antigos impérios)

2º - Império Romano (que integra e sintetiza a cultura grega)

3º - Império Cristão (fusão do mundo grego e romano, integrando o elemento hebraico)

4º - Império Europeu / Inglês ( ampliado por toda a terra e resultado da fusão do mundo antigo com a moral cristã)

5º - O Quinto Império (que “ fundirá os quatro anteriores com tudo quanto esteja fora deles”), o primeiro império verdadeiramente universal; um Império Espiritual. O desígnio de Portugal é cumpri-lo: “Depois da conquista dos mares deve vir a conquista das almas.”

O pensamento de Fernando Pessoa sobre:

A situação de Portugal do seu tempo:

“(N)uma época da pátria em que havia minguado a estatura nacional dos homens e falido a panaceia abstracta dos sistemas (...) um presente infeliz” / Um tempo de “inquietação e angústia”

“Ó Portugal, hoje és nevoeiro...” (Nevoeiro)

 “Este fulgor baço da terra/Que é Portugal a entristecer - /Brilho sem luz e sem arder” (Nevoeiro)

As virtudes do tipo português

“Homem harmónico, mente segura e planeadora, braço apto a realizar o que ele próprio planeou. Reunia a audácia e a ciência que torna a audácia mais alguma coisa que um impulso animal de quem não vê.”

  “Esse português fez as Descobertas, criou a civilização transoceânica moderna, e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alcácer Quibir, mas deixou alguns parentes, que têm estado sempre, e continuam estando, à espera dele.”

O sentido da sua vida/da sua missão

 “Não conto gozar a minha vida (...) . Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma lenha desse fogo. / Só quero torná-la de toda a humanidade ainda que para isso tenha de a perder como minha. /Cada vez mais ponho na essência anímica do meu ser o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.”

  O sentido divino da nossa missão (enquanto nação)

“Só duas nações – a Grécia passada e o Portugal futuro – receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras. (...) 

  “Tristes de nós se faltarmos à missão que Aquele que nos pôs ao Ocidente da Europa, e tais nos fez quais somos, nos impôs quando nos deu este nosso aceso e transcendido espírito aventureiro.”

O sonho

“Todas as naus são naus de sonho logo que esteja em nós o poder de as sonhar. / Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.”

  “Triste de quem vive em casa/Contente com o seu lar,/Sem que um sonho, no erguer de asa, Faça até mais rubra a brasa/Da lareira a abandonar!” (O Quinto Império)

Ø  A força do espírito

“Todo o império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de pé, um Cadáver mandando.”

 “(...)contra as artes e as forças do espírito não há resistência possível”

“A alma é divina e a obra é imperfeita.” ( O Padrão) 

A professora de Português N.S.

05 dezembro 2012

Mensagem e Os Lusíadas


Mensagem e Os Lusíadas


A Mensagem é um livro de 44 poemas breves, escritos em várias épocas, que, no seu conjunto, constituem um longo poema. Apresenta uma leitura simbólica e mítica da História de Portugal. Apesar de partir de um núcleo histórico concreto, e de personagens com existência histórica, o que interessa ao poeta, o que une todos esses “heróis” (ganhadores ou perdedores), é o seu lado ideal e mítico, o cumprimento de uma missão maior a que foram chamados, a “febre d’Além” (ver D. Fernando, Infante de Portugal), a grandeza de alma insatisfeita, o sonho que eleva a humanidade acima da “besta sadia”. A matéria literária é histórica. A leitura dela feita é lírica, simbólica e mítica.

 Na Mensagem, Portugal é um instrumento de Deus; os heróis cumprem um destino que os ultrapassa: “Foi Deus a alma e o corpo Portugal”. (F.P.)  “Deus ou os deuses talharam o destino dos povos.” (J. Prado Coelho)

 

A Mensagem é um “elogio do Português, desvendador e dominador de mundos”, não enquanto poderio terreno, mas enquanto ideal, procura de Absoluto. Por isso o Império Português do Século XVI foi apenas um “obscuro e carnal arremedo” desse outro Império Espiritual por achar:   Cumpriu-se o Mar, e o império se desfez./Senhor, falta cumprir-se Portugal!” . Pessoa exalta não o Império terreno, mas o Projecto, a Ideia condutora, o imaterial, o sonho, o mito, a fome de impossível, a loucura enquanto arrojo, quimera.

“Depois da conquista dos mares deve vir a conquista das almas.”

 

Também Camões e Os Lusíadas apresentam uma visão mística e de missão da História de Portugal. D. Sebastião n’Os Lusíadas é “Maravilha fatal da nossa idade, / Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, /Para do mundo a Deus dar parte grande” (para alargar a Cristandade). D. Sebastião é o símbolo do nosso messianismo – promessa, esperança, salvação, renovação. Mas muito do que em Os Lusíadas é acção/história, na Mensagem é já só ideal / mito. Do destinatário real de Os Lusíadas (D. Sebastião, rei de Portugal em 1572) Camões espera acção concreta ligada ao ideal de cruzada, num tempo específico, face a problemas, situações e vícios enumerados ao longo da obra, nos finais dos cantos. Para Pessoa, a evocação da figura é do âmbito do símbolo, do mito. Pessoa no-lo afirma: 

«O sebastianismo, fundamentalmente, o que é? É um movimento religioso, feito em volta duma figura nacional no sentido dum mito. / No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico. (…) morto D. Sebastião, o corpo, se conseguirmos evocar qualquer coisa em nós que se assemelhe à forma do esforço de D. Sebastião, ipso facto o teremos evocado (…) Por isso quando houverdes criado uma coisa cuja forma seja idêntica à do pensamento de D. Sebastião, D. Sebastião terá regressado.»

Fernando Pessoa, in Sobre Portugal, ed. Ática (sublinhado, meu)

 

Quanto à estrutura Os Lusíadas são pela forma e pela substância (exaltação da acção humana) uma epopeia clássica, a narração onde se entrelaçam a Viagem de Vasco da Gama, as intrigas dos Deuses e a História de Portugal.

A estrutura da Mensagem tem por base uma teoria cíclica – a das Idades; está dividido em três partes, pois olha a história da pátria como o mito de um nascimento (Brasão), vida (Mar Português) e morte de um mundo, seguida dum renascimento (O Encoberto): “Ó Portugal, hoje és nevoeiro... / É a Hora ! “   (“Nevoeiro”) . A primeira e a terceira parte estão subdivididas: Brasão subdivide-se de acordo com os símbolos da bandeira nacional - «Os  Campos», «Os Castelos», «As Quinas», «A Coroa» e «O Timbre»; a 3ª apresenta «Os Símbolos», «Os Avisos» e «Os Tempos». Todas estas divisões e designações revelam um sentido emblemático, ocultista; mais interpretativo e espiritual que narrativo/épico (como acontece em Os Lusíadas). Pessoa vê símbolos em tudo.

04 dezembro 2012

Texto expositivo


 
Escolha apenas um dos temas e escreva um texto de 80 a 130 palavras.
A
«Por obras valerosa que fazia
Pelo trabalho imenso que se chama
Caminho da virtude, alto e fragoso,
Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso»
Os Lusíadas, canto IX
«Quem quer passar além do Bojador
Tem de passar além da dor»
Mensagem, “Mar Português”
Relacione os excertos de Os Lusíadas e da Mensagem, acima reproduzidos, e, com base na sua experiência de leitura, explicite a visão de heroicidade presente em ambas as obras.
B
“Em Camões, põe-se no mesmo plano a memória e a esperança. Em Pessoa, não, porque o objeto da esperança se transferiu para o sonho, a utopia, e daí uma visão diferente de heroísmo.”
Jacinto do Prado Coelho, in Manual, p. 133

Com base na sua experiência de leitura, explicite e documente a visão apresentada no texto acima.
Alguns tópicos que estavam nos apontamentos:
 A.
Os Lusíadas e Mensagem
 

São obras publicadas num momento da História portuguesa que ambos os poetas consideram triste, de falta de arrojo criador, de crise, de “apagada e vil tristeza”(Canto X, 145)

O herói faz-se à custa de “hórridos perigos”, de “trabalhos graves e temores”, com “esforçoso braço” (Canto VI, 95, 97);
afinal, quem vale a pena ser lembrado são “aqueles que por obras valerosas /Se vão da lei da morte libertando” (C. I, 2)

“Quem quer passar além do Bojador/Tem de passar além da dor”(Mensagem)

“Valeu a pena? /Tudo vale a pena/

Se a alma não é pequena.”,

“O esforço é grande, o homem é pequeno”

  Apresentam uma visão sacrificial da heroicidade:


B.   
A Mensagem apresenta uma leitura simbólica e mítica da História de Portugal.

O que em Os Lusíadas é acção/história, na Mensagem é ideal/mito.

Parte de um núcleo histórico concreto (como Os Lusíadas), e de personagens com existência histórica (como Os Lusíadas), mas

O que interessa ao poeta da Mensagem, o que une todos esses “heróis” (ganhadores ou perdedores), é:
- o seu lado ideal e mítico 
- o cumprimento de uma missão maior a que foram chamados
- a “febre d’Além” 
- a grandeza de alma insatisfeita
- o sonho que eleva a humanidade acima da “besta sadia”

O Império Português do Século XVI é visto como um “obscuro e carnal arremedo” desse outro Império Espiritual por achar:  
Cumpriu-se o Mar, e o império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

“Depois da conquista dos mares
deve vir a conquista das almas.”
F.Pessoa


26 novembro 2012

Portugal - cabeça da Europa (em Pessoa e Camões)

Consegui, como prometera, encontrar o referido mapa.

MENSAGEM

(versão completa, seguindo a 3ª edição (1945), com a ortografia adoptada pelo Poeta)

Portugal e a Europa  no primeiro poema da Mensagem


O DOS CASTELLOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em  ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar  esfingico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto que fita é Portugal.
Fernando Pessoa
 
O poema refere-se à Europa, figurada como uma mulher que se deita, “de Oriente a Occidente”, apoiada “nos cotovellos”, “fitando”, ou seja, olhando fixamente para um alvo.
Um dos cotovelos pousa na Itália e o outro na Inglaterra; este sustenta a mão “em que se apoia o rosto”. Esse rosto, “o rosto com que fita”, “é Portugal”, o extremo-ocidente europeu, voltado para o Oceano.Esta tradição antiga, da Europa como uma figura virada para o oceano, configura-se num  mapa com o título de Europa Regina (Rainha Europa), desenhado em 1537 pelo poeta e matemático austríaco Johann Putsch (1516-1542)e de que há várias versões.


Portugal (a antiga Lusitânia) é o elo central da coroa que é a Hispânia, posta na cabeça da rainha cujo rosto é a Espanha de Carlos V e cujo corpo constitui a restante Europa.

Na cultura portuguesa, esta mesma tradição remonta pelo menos a Camões, no qual a “Ocidental praia lusitana” se apresentam como “quase cume da cabeça / De Europa toda”, “onde a terra se acaba e o mar começa”. A Espanha (toda a Península Ibérica)  é a " cabeça […] da Europa toda”

 
Depois, no Padre António Vieira, a mesma ideia de fim da terra europeia virada ao atlântico, de Portugal como “cabo ou rosto do Ocidente assim lavado do Oceano”, um país com vocação universal  (o Quinto Império universal), tema que Fernando Pessoa retoma na Mensagem.

 
Há um soneto de Miguel de Unamuno, oferecido ao poeta português Teixeira de Pascoaes e que deve ter influenciado F. P., pois o poema O Dos Castelos, da Mensagem, apresenta muitas semelhanças.  Chama-se "Portugal "e tem a terminar este verso muito interessante: (...) se levanta Don Sebastián rei do mistério.


Existe um artigo mais completo sobre esta matéria, com as respetivas referências bibliográficas em http://arevistaentre.blogspot.com/2011/10/um-olhar-sphyingico-e-fatal-portugal.html