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24 janeiro 2013

Fernando Pessoa - Revisões/treino


FICHA FORMATIVA 1 

Grupo I


Leia, atentamente, o texto a seguir transcrito.

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei de encontrá-lo ? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa, Poesia II (Europa-América)


Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1. No poema acima transcrito, o assunto estrutura-se de acordo com uma oposição temporal.
1.1 Explicite-a.
1.2. Identifique as formas verbais que sustentam essa oposição, referindo o tempo/modo.

2. No momento em que escreve, o «eu» poético manifesta um determinado estado de espírito. Descreva-o e justifique a sua razão de ser.

3. Comente o sentido dos versos: «A criança que fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou...»

4. Divida o poema em partes lógicas, justificando-as.

5. Indique o tema tratado nesta composição e integre-o na poesia pessoana.

II

"O Poeta é um fingidor." "Dizem que finjo ou minto" "Tudo o que escrevo". 

Fernando Pessoa 

Baseando-se na sua experiência de leitura, elabore um texto de oitenta a cento e trinta palavras comentando as transcrições acima apresentadas.

14 janeiro 2013

Correção do teste de verificação de leitura/escuta ativa





Visita a Mafra (2010-11)



MEMORIAL DO CONVENTO

Teste de verificação de leitura

Teste de compreensão oral

Instruções:
1. Oiça com muita atenção os pedidos ou as alternativas para cada questão, as quais serão lidas, pelo professor, devagar e uma só vez.
2. Conforme for o caso, registe na sua folha a informação pedida (ex., um nome, um exemplo) ou a alternativa correcta, nas questões em que lhe são dadas quatro hipóteses.
3. No final, o professor lerá de seguida e uma última vez todas as questões, para permitir colmatar alguma falha. Atenção: esta leitura será feita num ritmo mais próximo da coloquialidade.
CORRECÇÃO
Registe:
  1. A alternativa correcta: D. João IV, V, VI, VII
  2. O nome da mulher do rei. D. Maria Ana Josefa
  3. A rainha era de origem:
·       espanhola,
·       austríaca,
·       suiça
·       germânica. 
  1. O nome da filha do rei. Maria Xavier Francisca Leonor Bárbara
  2. O nome da mãe de Blimunda. Sebastiana de Jesus
  3. O nome do bispo Inquisidor. D. Nuno da Cunha
  4. A rainha, de luto pelo irmão e grávida de 5 meses, não assiste a:
    • uma missa de defuntos,
    • um auto-de-fé,
    • uma romaria;
    • uma procissão de fé.
  1. Quem diz as palavras: “Deixemos a Deus o campo de Deus (...) e façamos o nosso campo, o campo dos homens” (p.55) Padre Bartolomeu de Gusmão
  2. A mãe de Blimunda foi:
·       queimada viva;
·       mandada em paz;
·       supliciada e presa;
·       açoitada e degredada.
  1. A condenação da mãe de Blimunda deveu-se a:
·       roubo;
·       judaísmo;
·       ter visões;
·       fazer missas negras.
  1. Quem diz: “Os meus olhos são naturais”
  2. A máquina do Voador estava a ser construída:
·       Em Aveiro,
·       Em S. Julião da Barra
·       Na Quinta do Duque de Aveiro,
·       em S. Julião da Pedreira
  1. Quando o guarda-livros anuncia ao rei que se gastaram 200 mil cruzados na inauguração, a famosa resposta do rei foi:
·       Meus Deus, ajuda este reino!;
·       Não acredito, blasfemo!;
·       O reino pagará com impostos! Põe na conta!
·       Não me mintas ou vais arder na fogueira!
  1. A rainha é apresentada, sobretudo, como:
·       muito gastadora;
·       muito zelosa;
·       muito devota;
·       muito remota.
  1. Diz quais as forças que têm de ser reunidas para a passarola voar.
  2. O voo da passarola ocorre:
·       na Serra de Sintra,
·       na Serra de Montejunto,
·       na Serra da Estrela,
·       na Serra de Monchique.
  1. Nome do famoso compositor europeu professor de música da infanta.
  2. O Padre tem de fugir porque:
·       não podia pagar a passarola,
·       era perseguido pelo Grande Oficio;
·       era procurado pelo Inquisidor;
·       era perseguido pelo Santo Ofício.
  1. No final Blimunda:
    • reencontra o seu homem e fogem;
    • nunca encontra Baltasar;
    • encontra Baltasar a morrer;
    • foge para Espanha.

20. O espaço onde a acção finaliza é:
  • O Terreiro do Paço
  • O Rossio
  • O Saldanha
  • Mafra.










10 janeiro 2013

Três poemas de Fernando Pessoa

Deixo três poemas. Sugiro que leiam com muita atenção, pensem sobre as palavras - porque as palavras são pensamentos, afinal - e relacionem com o que vamos lendo e fazendo em aula.


O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"








 Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"








 Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Disseram.

Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.

Por quê
Esperar?
Tudo é
Sonhar.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

09 janeiro 2013

Pensamentos de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, pintura de Costa Pinheiro

"Nada é, tudo se outra."
"Sê plural como o universo!"

"Sou um homem para quem o mundo exterior é uma realidade interior." Fonte - Livro do Desassossego


"Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos - um poço fitando o céu."Fonte - Livro do Desassossego

esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir...

"Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Fonte - Livro do Desassossego

"Pensar é destruir. O próprio processo do pensamento o indica para o mesmo pensamento, porque pensar é decompor."Fonte - Livro do Desassossego

"Quando escrevo, visito-me solenemente."Fonte - Livro do Desassossego

"Não há felicidade senão com conhecimento. Mas o conhecimento da felicidade é infeliz; porque conhecer-se feliz é conhecer-se passando pela felicidade, e tendo, logo já, que deixá-la atrás. Saber é matar, na felicidade como em tudo. Não saber, porém, é não existir."Fonte - Livro do Desassossego

"A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar."Fonte - Livro do Desassossego

"Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida."Fonte - Livro do Desassossego

"A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas veem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida."Fonte - Livro do Desassossego


"A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível."Fonte - Livro do Desassossego


"O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela."Fonte - Livro do Desassossego

"Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente, por isso pouco sentiam. De aí a sua perfeita execução da obra de arte."

"Toda a poesia - e a canção é uma poesia ajudada - reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste."

"Só a arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes - tudo isso passa. Só a arte fica Ideias Estéticas - Da Arte


"Viver não é necessário. Necessário é criar."

Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito."Fonte - Livro do Desassossego


"Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida."Fonte - Livro do Desassossego



"A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente."Fonte - Livro do Desassossego

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma."

"Os cavalos da cavalaria é que formam a cavalaria. Sem as montadas, os cavaleiros seriam peões. O lugar é que faz a localidade. Estar é ser."

Fonte - Caracterização Individual dos Heterônimos

"O valor essencial da arte está em ela ser o indício da passagem do homem no mundo, o resumo da sua experiência emotiva dele; e, como é pela emoção, e pelo pensamento que a emoção provoca, que o homem mais realmente vive na terra, a sua verdadeira experiência regista-a ele nos fastos das suas emoções e não na crónica do seu pensamento científico, ou nas histórias dos seus regentes e dos seus donos."Fonte - Ideias Estéticas - Da Arte

"Qualquer indivíduo é ao mesmo tempo indivíduo e humano: difere de todos os outros e parece-se com todos os outros."Fonte - Ideias Estéticas - Da Arte 
Fonte - Páginas Íntimas e de Auto-InterpretaçãoTema - Ser// VER DETALHE


"Cansa tanto viver! Se houvesse outro modo de vida!"Fonte - Livro do Desassossego




08 janeiro 2013

Revisões gramaticais ( Predicado)

Agora que já revimos as principais orações, vamos atentar nas funções sintáticas, começando pelo essencial: o PREDICADO


Composição do Predicado


O predicado compõe-se das seguintes formas:


1) Com verbo transitivo directo

- A Ana come um bolo.

- A Ana come um bolo com apetite.


Composto pelo núcleo verbal, complemento directo e modificadores que ocorram.



2) Com verbo transitivo indirecto

- A Ana fala ao João.

- A Ana fala ao João de outros assuntos.

Composto pelo núcleo verbal, complemento indirecto e modificadores que ocorram.



3) Com verbo transitivo directo e indirecto

- A Ana um bolo ao João.

- A Ana um bolo ao João agora.


Composto pelo núcleo verbal, complementos directo e indirecto e modificadores que ocorram.



4) Com verbo intransitivo

- Eles moram em Lisboa.

- A Ana vai a Lisboa diariamente.

- O João corre diariamente.


Composto pelo núcleo verbal, complementos preposicionais e modificadores que ocorram.



5) Com verbo copulativo

- Ele é um óptimo médico.

- Ela continua doente.


Composto por um núcleo verbal e o predicativo do sujeito.



6) Com um complexo verbal

- O João tem trabalhado muito.

- O fogo foi provocado por incendiários.


Composto pelo complexo verbal, complementos e modificadores que ocorram.




Créditos: http://www.prof2000.pt/users/drfilipeaz/pagsparali/exercicios/predicado1.htm

06 janeiro 2013

A Dama Negra - esclarecimento de dúvidas


 Em resposta a dúvidas hoje colocadas sobre A DAMA NEGRA..., deixo alguns elementos a reter.



Ø          A sobrinha - Toda a narrativa é espécie de confissão à sobrinha, Lourença, que se assume como narratário, um género de leitor/ouvinte em primeira mão 

Ø  A narrativa vai sendo sempre entrecortada com a referência ao narratário – Lourença – com expressões como Não me olhes assim, Lourença ou Perguntas bem, Lourença... Lourença, pressinto que neste momento estás empenhada em saber…
A autora do livro sabe – a partir do testamento real – da existência histórica de uma sobrinha, citada como herdeira.  No final, Simoa diz: «Contra a vontade da família do teu pai, fizeste questão de vir ao funeral do teu tio e de me agradecer pessoalmente o sustento da tua casa. (…) o teu sacrifício acabou por enriquecer os meus dias» Criou-se entre nós uma daquelas relações que se fortalecem por antagonismo» (de idade e de princípios; ao longo da narrativa percebe-se que a jovem é conservadora, embora boa pessoa, alinha nos pensamentos/atitudes da época - Ex Abanas de novo a cabeça, Lourença, e bem vejo que o fazes com especial desdém. É por tomares conhecimento de que sou bastarda? ou Como é que tomei conhecimento desta intimidade? É isso que cuidas de saber, Lourença? Só te respondo se prometeres não te escandalizar. Não quero que fujas a correr para ires beijar os pés de uma das figuras de Cristo na igreja mais próxima, em penitência pelas graves sevícias a que por minha causa submetes os ouvidos.)            
            
      A Situação:
Sentindo a morte aproximar-se, Simoa deseja acertar contas com as suas memórias invulgares e partilhá-las com a sobrinha (estratégia para a autora contar a história). Por isso, no seu leito, pede que Lourença permaneça ali a noite inteira para lhe contar tudo. Lourença vai sendo interpelada; a dada altura adormece, mas Simoa continua. 

       O Testamento
No final da longa narrativa, em que Lourença só manifesta a sua presença através da intermediação da narradora - Não me olhes assim, Lourença etc, quando Lourença acorda percebe que Simoa está moribunda, manda chamar o frade e os notários para se encarregarem da encomendação da alma e dos bens, respetivamente. Assim:
Aproxima-se a hora da janta. Pede a Maria das Chagas que te traga comida ao quarto. Suplico-te, minha doce sobrinha, hoje não te vás embora para a tua casa. Gostaria que permanecesses comigo a noite inteira. Traz aquela cadeira para junto da cama e senta-te. Providencia também uma manta porque as noites ainda estão frias. Quero contar-te tudo antes da chegada do fim das coisas. A urgência deste tempo que se esgota arrasta-me para um excesso de dúvidas sobre o que fiz da minha vida. (…)/. Já não disponho de muito tempo. Estou ciente de que em cada batida do meu coração há uma aproximação à morte.
(…) Julgava-me preparada para enfrentar a gadanha da morte, mas na verdade mentia a mim mesma, ainda que com mentiras exactas à sua maneira. Há anos que me esforço por coordenar os pensamentos com as fraquezas de uma idade avançada. Tento infundir no meu espírito uma certa anuência à inevitabilidade da minha partida. Mas não me conformo! Fui acaute­lando os preparativos para a morte, organizei tudo menos a minha própria vontade.
(…)
Não me olhes assim, Lourença, nem fales comigo nesse tom tão baixo. Ainda não estou morta... Nasci preta, mas as vozes do povo de Lisboa asseguram que a minha alma de tão pura só poderá ser branca. (…)
O tempo detém-se nestas imagens que acompanham a minha infância. Crescem as incoerências da memória e as personagens misturam-se, mas lembro-me bem daquela tarde(…)
Em todo o caso, todas estas recordações se revelam incertas, talvez falsas nos pormenores, mas verdadeiras no conjunto.

04 janeiro 2013

Fernando Pessoa por ele próprio (ou quase...)

[dact] [1930?] 

Aspectos [Prefácio para a edição projectada das suas obras]

A obra complexa, cujo primeiro volume é este, é de substância dramática, embora de forma vária – aqui de trechos em prosa, em outros livros de poemas ou de filosofias.

É, não sei se um privilégio se uma doença, a constituição mental que a produz. O certo, porém, é que o autor destas linhas – não sei bem se o autor destes livros – nunca teve uma só personalidade, nem pensou nunca, nem sentiu, senão dramàticamente, isto é, numa pessoa, ou personalidade, suposta, que mais pròpriamente do que ele próprio pudesse ter esses sentimentos.

Há autores que escrevem dramas e novelas; e nesses dramas e nessas novelas atribuem sentimentos e ideias às figuras, que as povoam, que muitas vezes se indignam que sejam tomados por sentimentos seus, ou ideias suas. Aqui a substância é a mesma, embora a forma seja diversa.

A cada personalidade mais demorada, que o autor destes livros conseguiu viver dentro de si, ele deu uma índole expressiva, e fez dessa personalidade um autor, com um livro, ou livros, com as ideias, as emoções, e a arte dos quais, ele, o autor real (ou porventura aparente, porque não sabemos o que seja a realidade), nada tem, salvo o ter sido, no escrevê-las, o médium de figuras que ele próprio criou.

Nem esta obra, nem as que se lhe seguirão têm nada que ver com quem as escreve. Ele nem concorda com o que nelas vai escrito, nem discorda. Como se lhe fosse ditado, escreve; e, como se lhe fosse ditado por quem fosse amigo, e portanto com razão lhe pedisse para que escrevesse o que ditava, acha interessante – porventura só por amizade – o que, ditado, vai escrevendo.

O autor humano destes livros não conhece em si próprio personalidade nenhuma. Quando acaso sente uma personalidade emergir dentro de si, cedo vê que é um ente diferente do que ele é, embora parecido; filho mental, talvez, e com qualidades herdadas, mas as diferenças de ser outrem.

(...)
Afirmar que estes homens todos diferentes, todos bem definidos, que lhe passaram pela alma incorporadamente, não existem - não pode fazê-lo o autor destes livros; porque não sabe o que é existir, nem qual Hamlet ou Shakespeare, é que é mais real, ou real na verdade.



Excertos de Páginas Íntimas e Auto Interpretação

A Dama Negra da Ilha dos Escravos


Realço o apreciação mais sintética e interessante que encontrei. Aqui fica, com destaques meus:

"Escrito na senda do romance histórico, mas não propriamente segundo os seus cânones, este romance restringe o seu objecto ficcional ao sujeito, a partir do mito criado em torno de uma exótica "dama negra" que se soube impor pela beleza e pelo arrojo no modo como assumiu o seu mais do que inconveniente casamento. Este viria a entreabrir-lhe as portas da aristocracia lisboeta, e ela soube fazer o resto: com altivez e generosidade, ficando conhecida pela sua faceta profundamente humana e caridosa, e pelo seu incansável esforço em devolver a liberdade aos negros que a tinham servido como escravos. O texto desliza, soberbo, pelos anos de juventude, frondoso como a ilha, apaixonado como a narradora, íntegro como Luís de Almeida, um fidalgo português arruinado que decide instalar-se em São Tomé para tentar a sorte. Com a contratação de um especialista no fabrico do açúcar, trazido directamente da Madeira, o português terá marcado o seu próprio tempo na História. Subterrâneo ao discurso, a influência de Simoa, que desde muito nova se apercebera das diferenças entre brancos e pretos. A contribuição de Luís de Almeida complementaria ainda a forma de trabalhar nas suas fazendas, com a introdução de outras ideias de cariz mais humanitário em relação aos escravos. De resto, o que dizer do livro sem o revelar em excesso? Escrito num registo memorialista - cujo subtítulo anuncia - a vida de Simoa Godinho é-nos transmitida pela própria. É uma lição de partilha que se lê pressentindo o privilégio, vindo de quem apenas aparentemente herdara a pior parte do mundo, constituído particularmente pelos da sua cor de pele. A sua existência no seio de uma família rica de fazendeiros é já um primeiro exemplo de miscigenação alargada, com séculos de antecedência. Neste caso, foi o avô branco, chegado aos oito anos à ilha num barco com centenas de outras crianças de origem judia, a casar com a avó preta, descendente dos reis do Benim. Simoa convive desde sempre com dois modos antagónicos de pensar e de viver, de entender as coisas e as paixões. Já casada com Luis de Almeida, abandona a ilha dos escravos para viver na capital do reino, adquirindo um terceiro modo de coexistência que não afecta a sua capacidade de adaptação. Todo o livro avança no sentido da ruptura com preconceitos e da conquista de uma sociedade fechada e hostil, superando o primado da aparência, essência da época. A força do desejo e da determinação é, em Simoa, pelo menos tão forte como a sua sobranceria em relação ao constrangimento e à reprovação por parte da sociedade. A herança genética africana garante à protagonista o pulsar de um sangue que liberta os sentidos, a sintonia com a natureza, os seus ciclos e a sua imprevisibilidade."

Luisa Mellid-Franco (jornalista), Ed. Presença, disponível em 4 de janeiro em http://www.presenca.pt/editorial/a-dama-negra-da-ilha-dos-escravos-1286908936bc_oid=112285&UDSID=§§§§001301062029330001310551303§§§§