
Neste excerto é-nos apresentada uma crítica à falta de interesse pelas artes por parto do povo lusitano. Inicialmente o poeta compara o povo luso aos povos da Antiguidade quanto aos feitos realizados, mas refere que existe uma diferença: enquanto os antigos prezavam o verso e a rima os portugueses nenhuma importância davam a essa área.
Garcia de Resende (séc. XV) já afirmava, na introdução ao seu Cancioneiro, que o grande mal dos portugueses é nunca escreverem coisa que façam, e Camões refere que o seu povo não escrevia por falta de qualidades naturais mas sim por desleixo e desinteresse pela lírica (“Por isso, e não por falta de natura” Canto V, estrofe 98).
Depois, o poeta argumenta que se não existirem artistas que relatem os feitos heroicos realizados, estes nunca perpetuarão na História (“Não há também Virgílios nem Homeros / Nem haverão, se este costume dura / Pios Eneias nem Aquiles feros” estrofe 98, canto V).
Nas duas últimas estrofes o poeta refere-se claramente a si próprio e ao seu papel, contrariando a regra das epopeias clássicas, e tem em conta o seu grande valor, referindo a necessidade de Gama lhe agradecer (n’Os Lusíadas às Musas, o que no fundo irá dar ao mesmo visto que os versos - a Poesia - são uma invenção de Camões) pois é ele que vai imortalizar os feitos heroicos do povo lusitano, realizando uma complexa e grandiosa obra com “amor fraterno e puro gosto”. Mas isto não significa que o poeta despreze o valor dos lusitanos face à sua obra, muito pelo contrário, pois é também o próprio Camões que declara “Porém não deve enfim, de ter disposto / Ninguém a grandes obras sempre a peito / que, por esta ou por outra qualquer via / Não perderá seu preço e sua valia” estrofe 100, Canto V).
Bernardo Brasil
Francisco Reis