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13 abril 2013

Atualizar a reflexão de um autor - como fazer?


   Como creio que MEMORIAL DO CONVENTO começa a estar já apreendido no seu significado, simbologia e alcance, creio que seria interessante  pensarem em formas de atualizar a reflexão do autor.

Assim, se vivesse agora, que aspetos da vida histórica, social e humana caberiam na sua reflexão?

Se o narrador de MEMORIAL viesse aqui e agora - «neste ano da graça de 2013» - que página de texto escreveria? quem seria objeto da sua narrativa? e a língua afiada, pronta a comentar o que visse, que diria?


Para se inspirararem, deixo um interessantíssimo texto com um objetivo idêntico, mas escrito a propósito de OS MAIAS, publicação realizada - obviamente - com a autorização do autor,  um espírito crítico de 2013, inspirado pelo Eça  




Um crítico do seu tempo


O jantar tinha sido marcado para as nove menos um quarto no “Fuzeta”, um restaurante no início da Rua D. Alfredo com espaço para algumas sessenta almas. Tratava-se de um espaço de alegre ambiente, boa comida, bebida e preço acessível, o que o tornava extremamente requisitado para este tipo de eventos: jantares de anos de adolescentes. No entanto, o factor mais importante era, na realidade, a sua considerável distância do centro, o que afastava a hipótese de um encontro indesejado com algum conhecido.

    Apesar de ser íntimo do aniversariante, Tomás, um rapaz de 17 anos, baixa estatura, largos ombros, com cabelos de raiz escura mas clareados pelo sol, pele morena, lábios carnudos e olhos claros e amigáveis, só saíra de casa às nove e dez. Não se atrasara por ter perdido a noção do tempo ou ter estado nalguma actividade que lhe impedira de se despachar mais cedo. Tinha sido um atraso propositado e a complexa explicação estava a ser-lhe dada pelo seu amigo Ernesto:
    - És tão simples que dói. - Tomás era de facto, um rapaz com um sentido prático extremamente acentuado que nunca percebera a constante necessidade de se complicar o que era simples – Vou-te explicar como se fosses muito burro. Ninguém vai lá estar à hora marcada, as pessoas chegam sempre atrasadas e nós certamente que não queremos ser mais atrasados que elas, chegando a horas.
    - Mas explica-me, porque é que hei-de ficar em casa a queimar tempo, para chegar atrasado?! Se os outros não chegam a horas, problema deles, percam menos tempo a escolher as meias que melhor combinam com as cuecas que vão levar.
    - Achas mesmo que o problema desta gente é falta de tempo? A roupa para hoje já está escolhida há uma semana e, para além dos jogos de futebol, não devem perder tempo com mais nada: não se estuda, não se lêem livros, não se faz desporto, não nada.
Continuando, chega-se atrasado porque é “chique”, aquilo a que os ingleses chamam to be fashionably late. Ninguém que se preze é a primeira pessoa a chegar a uma festa.
    - Ahhhh, já percebi, chego atrasado para parecer uma pessoa ocupada enquanto na verdade estive em casa a empatar. Como é que demorei tanto tempo a compreender toda a lógica inerente a este processo?!
    Ernesto, sorriu.

    Antes de irem para o “Fuzeta”, Ernesto queria comprar um maço de Marlboro por isso pararam no “Café do Aires” , uma familiar taberna onde os reformados e desempregados da zona se juntavam para as suas importantíssimas discussões sobre futebol, carros e mulheres, estranhamente, encontrava-se sempre cheio. Tomás considerava pertencer à minoria dos adolescentes que não fumavam, e, dado que só excepcionalmente lhe era apresentada uma boa desculpa para tal, achava que o facto de fumarem um cigarrinho de vez em quando, só mostrava o quão influenciada esta juventude se mostrava. Fumavam porque era maturo, fumavam porque dava estilo, fumavam por fumar, enfim, fumavam por falta de carácter.
    Quantas e quantas tentativas de persuadir Ernesto a parar, apenas resultaram no amargo sabor do insucesso para Tomás. Eventualmente, Tomás desistira. Sempre que o via a fumar, lembrava-se da, provavelmente, maior discussão que tivera com Ernesto e que desencadeara no que parecera uma infinita série de revelações e desabafos.
  

    Tomás sempre soubera que os pais de Ernesto eram ausentes, em miúdos, após a escola, Ernesto enfiava-se em sua casa e brincavam até à hora de jantar. Ao início, os seus pais estranhavam o facto de uma criança passar o dia fora de casa sem que ninguém perguntasse por ela mas, apercebendo-se da falta de presença daqueles pais, se é que se podiam chamar de pais, a mãe de Tomás, praticamente adoptara aquele miúdo que, daí em diante, apenas ia a casa a dormir, quando não o fazia em casa de Tomás. Cresceram como irmãos, quem não os conhecesse não o negaria não fosse Ernesto ser incrivelmente alto, loiro, branco como o cal e os olhos de um azul que faziam lembrar o mar de uma praia paradisíaca, e, no entanto, a vivacidade e boa disposição de Ernesto ocultavam, mesmo para Tomás, todo o drama que decorria no seu lar.
    Não se tratava de um caso de violência doméstica ou de uma pai bêbado que, de madrugada, acordava a família enquanto barafustava para uma porta que se recusava a abrir… Não, Ernesto pertencia a uma família de bom nome, seus pais eram inteligentíssimos, de boas maneiras, profissionais extraordinários com os cargos mais destacados nas respectivas empresas. 
    O único problema era que os seus pais ignoravam-no, pura e simplesmente. Sentia-se a mais naquela família, sentia que aquilo não era uma família, sentia que aqueles que o conceberam não nutriam qualquer tipo de afectos por ele, e aí estava a razão para Ernesto fumar. Não era extraordinário, para Ernesto, não falar com os pais durante uma semana. Até o preferia assim, era uma maneira de não ter de ouvir críticas sobre tudo e mais alguma coisa e, quando não os via, sentia-se aliviado, pois entravam constantemente em conflito o que o enervava seriamente.
    Eventualmente habituara-se aquela maneira de viver, nunca conhecera outra, mas, cada vez que se chateava com os pais, ficava stressado e fumar era o que o ajudava a acalmar-se. Para Tomás continuava a ser uma estupidez.

    Absorto nos seus pensamentos, nem dera conta que já se encontravam à porta do “Fuzeta”. Não era invulgarmente bonito, mas a forma como estava mobilado tornava-o invulgarmente confortável. A divisão que mais agradava Tomás era um pequeno hall com dois ou três cadeirões de pele, gastos pelo uso, dispostos em círculo à volta de uma antiga mesa de madeira avermelhada com reduzidas dimensões. O chão de tijolo era tenuemente iluminado por três candeeiros nas paredes brancas decoradas com uma só pintura que retractava as feições severas do fundador do restaurante.


   Quando os pratos bifinhos com cogumelos e os bitoques foram postos na longa mesa , já há muito que jarros de sangria e cerveja tinham sido esvaziados para os copos e, uma vez nos copos, pareciam evaporar e isso era notório no ambiente que imperava. O próprio Tomás já bebera um pouco, contudo, encontrava-se suficientemente sóbrio para notar todos aqueles meninos de boas famílias, supostamente, bem educados não eram capazes insistir que as meninas fossem servidas primeiro, ou de conter algumas palavras menos agradáveis nas suas conversinhas.
    Cavalheirismo, uma virtude em decadência… Mas enfim, que podia ele fazer? Acendeu um cigarro que o Ernesto lhe dera e, visto que a comida estava a esfriar, decidira comer. A rapariga que se sentara a seu lado olhava para a sua frente onde se encontrava um prato vazio…





      Bernardo Maria

                                                                                                                

12 abril 2013

Um Homem: Klaus Klump - entrevista com o autor


Gonçalo M. Tavares


Por Maria João Cantinho


Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Foi bolseiro do Ministério da Cultura – IPLB com uma bolsa de Criação Literária para o ano 2000, na área da poesia. Em Dezembro de 2001 publicou a sua primeira obra : Livro da dança, na Assírio e Alvim. Recebeu o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do Jornal Expresso com a obra O Senhor Valéry (editorial Caminho, 2002) e o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Investigações. Novalis (Difel). Publicou, ainda O Homem ou é tonto ou é mulher e A Colher de Samuel Beckett e outros textos. Em 2003 surge O Senhor Henri e Um Homem: Klaus Klump, sob a chancela da editora Caminho.
Em Um Homem: Klaus Klump, o primeiro de uma série de “livros pretos”, o autor narra, de uma forma expurgada e quase abstracta, a situação de uma série de personagens num contexto germânico de guerra. Trata-se de uma obra violenta, onde os vários acontecimentos se vão entretecendo com máximas e aforismos, culminando uma reflexão desencantada sobre os princípios e leis da natureza humana e animal.
Traduzido e incluído em várias antologias estrangeiras de poesia, Gonçalo M. Tavares tem vindo a revelar-se como um dos talentos mais fecundos e sólidos, na actual literatura portuguesa.


Nota: Em colaboração com a revista OS MEUS LIVROS, Lisboa, Portugal. Leia, também, a recensão de " Um homem: Kaus Klump" na secção de LIVROS


Maria João Cantinho– Este é o primeiro de uma série de “livros pretos”. Porquê? Será uma nova fase da sua obra?

Gonçalo M.Tavares - Os livros pretos designam o início de uma espécie de seriedade desencantada que aparece já no livro “Um homem: Klaus Klump”. Como alguns dos livros anteriores passavam por um certo pendor lúdico pareceu-me relevante assinalar – também na cor – esta diferença. Julgo que entre as várias funções de um escritor estão o encantar e o desencantar. O encantar tem a ver com a construção de determinados mundos fechados, distantes da realidade, que façam com que o leitor se sinta num outro estado, sem ser incomodado, tendo a possibilidade de, no limite, ser feliz. Isto parece-me bom. Mas há o outro lado. O desencantar é uma das outras funções do escritor, e associo essa função a este romance. Desencantar significa, seguindo a própria origem da palavra, interromper a canção, deixar de cantar a canção que vinha de trás; desencantar é impor uma outra música ou impor mesmo o silêncio, que é um elemento brutal. Se instalarmos durante trinta segundos o silêncio na televisão, por exemplo, veremos o poder que tem o facto de nada acontecer durante um determinado tempo, no sítio, como a televisão, que foi feito para dar a ilusão de que os acontecimentos são intermináveis. Uma outra música ou o silêncio obrigam a uma espécie de atenção do olhar sobre o que existe e é desagradável. Estes livros pretos são o início de uma linha mais séria, não irónica, que tenta interferir, não apenas na linguagem ou na literatura, mas se possível na vida das pessoas.
Mas não é uma ruptura com o meu percurso. Cada pessoa é muitas coisas. Todas as pessoas são uma associação interminável de jogo e seriedade, humor e irritação, emoção amorosa e instinto de luta. Eu sou isto e aquilo e aquilo e ainda aquilo. É natural portanto que o que eu escrevo seja isto e aquilo e aquilo e ainda muitas outras coisas.

M.J.C. – Este livro apresenta uma visão pessimista e niilista da vida humana. Não concorda?
G. M. T. - A vida humana é extraordinariamente feliz e infeliz. Os homens são extraordinariamente bons e maus. Não sou pessimista: não vejo o Homem como uma bola orgânica má, apenas. Mas julgo que é um optimismo pouco lúcido, e até perigoso, considerar que os humanos são uma espécie de bonzinhos intermináveis. Foi o facto de os homens não estarem atentos à maldade dos outros e de si próprios que fez com que ocorressem uma série de tragédias no século em que a cultura atingiu o seu auge. Um carrasco pode citar Heraclito ou Shakespeare enquanto tortura, e isto, para quem gosta de literatura e de ideias é absolutamente terrível. Mas o que me parece importante é que a literatura, a poesia e as artes nunca esqueçam a maldade potencial de todos os homens. A função de desencantar, em que o romance “Um homem: Klaus Klump” se insere, é uma espécie de agulha que incomoda constantemente, uma espécie de chamada de atenção, como quem diz: “Não te esqueças da tua maldade, ela anda por aí, algures, não te esqueças dela, localiza-a bem para a controlares, para evitares que ela venha à superfície.” Temos de estar atentos: à maldade dos outros e também à nossa. E isto não é ser niilista nem é transformar-se num pessimista entediado com tudo, é apenas ligar a lucidez como se liga o botão da electricidade. O nosso olhar tem de estar atento, apenas isso.

M.J.C.– Há um olhar ético, um compromisso ético com o mundo? Acha que isso é importante, na literatura?
G.M.T. – Claro que sim. A vida e a literatura. Temos de estar atentos ao mundo. Mas o mundo começa em nós e vai por aí fora até perder de vista. Há crápulas individuais que são muito bonzinhos para o mundo longínquo, o que não me parece lá muito equilibrado. Como é evidente há mil e uma formas de fazer livros e não é necessário estarmos sempre a apontar a tragédia humana e a maldade no mundo. Este livro “Um homem: Klaus Klump” passa por essa atenção, mas há outros livros que não. Acho que os escritores têm a obrigação ética de estar atentos (todas as pessoas, aliás) mas também têm direito ao jogo, ao divertimento, e ao trabalho sobre a linguagem. Se estivermos sempre a olhar para a luz ficamos ceguinhos, e se estivermos sempre a olhar para o escuro, perdemo-nos. Há que alternar a inclinação do olhar, olhar sempre com a mesma intensidade para o mesmo objecto além de ser entediante, faz mal as pupilas, parece-me. O Fernando Pessoa, aliás, queixava-se de dores na cabeça e no universo, e tais dores parecem-me um excelente programa literário. Alternar o combate às dores de cabeça particulares com o combate às dores de cabeça do universo, parece-me um excelente projecto de vida. Em síntese: amar e protestar.

M.J.C. – Ao ler o seu romance sente-se como se a morte estivesse sempre à espreita e fosse uma imagem pairante e alegórica que se constitui como o núcleo do livro - sobretudo na figura do cavalo morto que se mantém na rua e se vai decompondo, ao longo do romance. Concorda?
G.M.T. – A morte continua a ser inacreditável. É uma espécie de milagre mau, milagre invertido ou milagre do avesso, que infelizmente insiste em repetir-se geração após geração. Mas é sempre uma surpresa, apesar deste elemento estatístico que nos dá a ilusão de normalidade; porém morrer não é normal, não pode ser! Quando aceitarmos que a morte pertence ao quotidiano é porque já deixámos cair do bolso da alma qualquer coisa de fundamental; uma espécie de indignação existencial, talvez. A morte vem aí, mas eu protesto, todos protestamos. Não nos indignamos por ter nascido, mas indignamo-nos por morrer. De facto, não é digno, não é honrado, dar e tirar. Sentimo-nos dentro de uma fraude. Como que enganados no negócio de existir.
Quanto à decomposição da carne dos animais julgo que ela deveria ser mais visível e explícita no meio das cidades. Em frente a grandes edifícios, de vez em quando, o Ministério da Lucidez, se tal existisse, deveria colocar um animal em decomposição e não permitir que ninguém o retirasse dali durante um tempo. Era uma espécie de sinal preto, como o que existe nos maços de cigarro: atenção, atenção, não te esqueças!
No romance “Um homem: Klaus Klump” o cavalo termina mais manso que as moscas, e isto não é uma ficção: são coisas que acontecem muito no mundo.

M.J.C. – Aimagem que, de resto, se apresenta explicitamente no livro, é a da permanente dança da vida com a morte, a eterna dialéctica, portanto…

 (...)

M.J.C. – Apesar da morte e do apodrecimento do cavalo, da exposição constante desse animal mutilado, há a possibilidade, ainda, de olhar “as cores impressionantes” do poente, por detrás do seu cadáver. Como se a morte fosse assimilada pela vida e pela sua beleza. Dissolvida no triunfo da vida, não acha?

G.M.T. – Parece-me que uma característica deste livro é a velocidade: e a velocidade assimila tudo, a velocidade é como se fosse um grande estômago, a grande velocidade tudo se mistura e ao mesmo tempo nada parece acontecer. E no meio da velocidade dos humanos, parece-me que a natureza é a preguiça por excelência. Está lá. Fechamos os olhos, continua lá, abrimos os olhos, e lá está ela. Sempre no mesmo sítio, com o mesmo tipo de comportamentos. Digamos que não progride. Em relação à Natureza o fim da História parece que chegou há muito, e as ameaças de alguns cientistas de que o sol vai desaparecer daqui a biliões de anos ainda não assustam ninguém. Antes disso ainda há muitos fins de semana prolongados (risos). E a natureza mantém a mesma estupidez ou a mesma inteligência de sempre, e não é má nem boa. Não podemos, por exemplo, acusar o pôr do sol de nada. Não faz sentido dizer: quando estamos tristes a natureza deveria evitar ser bela! Ela continua. Neste livro há uma personagem que ameaça disparar contra a natureza, e outra que diz que provavelmente o tiro não acertará. Talvez esta segunda personagem tenha razão.

M.J.C. – A loucura é um tema recorrente neste livro, num cenário de barbárie que é o da guerra: “Klaus tinha os lábios pretos, como se falasse outra língua. Tinha perdido a pátria e com ela cada palavra antiga tinha-se tornado escandalosa. São palavras pretas. Queimavam os lábios.” Parece-lhe que esta loucura (e a mudez que a ela se associa) corresponde à incapacidade de manter a lucidez face ao horror da guerra, a uma incapacidade de comunicar que, muitas vezes, se traduz no absurdo e na brutalidade dos gestos?

G.M.T. – Não sei responder a essa pergunta. Não sei se se consegue manter a lucidez dentro de momentos limite. Acho é que a lucidez se treina, e que a lucidez pode ser quase vista como uma técnica, que se aprende, desenvolve. Não é como uma aparição ou um milagre. Uma pessoa não fica lúcida porque lhe cai um pó de lucidez na cabeça. E o que me parece é que só podemos treinar e desenvolver a lucidez em tempos tranquilos, afastados portanto da guerra ou das grandes tragédias. Porque nestas situações limite temos de agir com urgência. Agir. Todos nós temos então de agradecer não sermos obrigados a agir constantemente em situações limite. E uma forma de agradecer é aproveitarmos bem esse tempo. Treinar a musculação da lucidez é uma boa hipótese para aproveitar o tempo, parece-me.

M.J.C. – O tom expurgado e quase notarial em que o livro é escrito apresenta-nos um quadro de personagens que, na maioria dos casos, aparecem “despidos de humanidade”, mesmo no caso das personagens femininas, à excepção de Johana. Parece-lhe ser a humanidade um luxo reservado às sociedades que vivem em paz?

G.M.T. - Não, mas a expressão “despidos de humanidade” é interessante. Olhando um pouco para ela vemos que pressupõe que a humanidade é como uma camisola de lã: pode ser despida. Isto é: que a humanidade não pertence ao essencial do homem. É separável; a humanidade é uma invenção da linguagem do homem e não uma invenção dos actos do homem. Isso para já parece-me muito evidente. Os dias dos animais estão cheios de actos humanos. E os dias dos homens estão cheios de actos animalescos. Os animais são muito “humanos”. Vi há uns tempos um vídeo do artista João Onofre que me impressionou: onde um abutre passeava pelo atelier dele. O abutre pode ter uma série de comportamentos humanos. Até desconfiamos, ao ver esse vídeo, de que esse animal repelente por vezes tem interesses estéticos, parece ter até vontade de consultar álbuns de arte (risos). Portanto não sei se há assim de imediato uma grande separação entre os vários reinos da natureza. A ideia de que o Homem é mais moral do que um animal, uma planta ou uma pedra parece-me precipitada. E além do mais vinda dos próprios homens torna-se suspeita. É parte interessada. Em suma: o Homem pode pôr, perfeitamente, a alma e o chapéu no bengaleiro. E assim entrar numa sala mais livre, e aqui mais livre pode significar: mais disponível para a bondade ou então: mais disponível para a maldade.


(disponível em
http://www.storm-magazine.com/novodb/arqmais.php?id=204&sec=&secn=
acedido em 12/04/2013)






As Cidades Invisíveis, ainda

As Cidades Invisíveis
Italo Calvino


"Otávia"



Da Folha de S. Paulo

 "O viajante veneziano Marco Polo descreve para o imperador Kublai Khan as cidades que visitara. O desejo de Khan é montar o império perfeito a partir dos relatos que ouve. São lugares imaginários, sempre com nomes de mulheres: Pentesileia, Cecília, Leônia. Os relatos curtos são agrupados por blocos: as cidades e a memória, as cidades delgadas, as cidades e as trocas, as cidades e os mortos, as cidades e o céu.

Síntese
No século 13, após uma viagem que teria durado 30 meses, o mercador veneziano Marco Polo chegou às portas do Extremo Oriente e conheceu a capital do imenso império de Kublai Khan: Cambaluc, atual Pequim. Lá o jovem Marco permaneceu por 17 anos, desempenhando importantes funções diplomáticas na corte do Grande Khan. Isso é o que está registrado nos compêndios de história.

Em "As Cidades Invisíveis" (1972), Italo Calvino extrapola os fatos possíveis e imagina um diálogo fantástico entre "o maior viajante de todos os tempos" e o famoso imperador dos tártaros. Melancólico por não poder ver com os próprios olhos toda a extensão dos seus domínios, Kublai Khan faz de Marco Polo o seu telescópio, o instrumento que irá franquear-lhe as maravilhas de seu império.

Polo então começa a descrever minuciosamente 55 cidades por onde teria passado, agrupadas numa série de 11 temas: "as cidades e a memória", "as cidades e o céu", "as cidades e o mortos" etc. As visões, projetadas numa rigorosa arte combinatória, bebem de muitas fontes, desde as "Mil e Uma Noites" até as megalópoles que vemos no cinema. O resultado é um livro extraordinário e indefinível.

Em nenhuma outra obra Italo Calvino levou tão longe os valores que considerava fundamentais à sobrevivência da "espécie literária": leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. O leitor verá que é impossível não se perder nessas cidades, como é impossível não se enredar nessas teias de palavras."


Concurso de Leitura - As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino

Maria, Mariana e Fox

Creio, pelas discussões (e ecos), que já chegaram ao essencial, ao significado da obra. Ainda assim, deixo apoios.

Alguns estão em Port. do Brasil, com diferenças que facilmente identificam.


 "Em narrativas breves, As cidades invisíveis, de Italo Calvino põe em cena o veneziano Marco Polo descrevendo para o grande Kublai Khan as inumeráveis cidades que visitou em suas missões diplomáticas pelo império mongol.

Nesta obra Italo Calvino extrapola os fatos possíveis e imagina um diálogo fantástico entre "o maior viajante de todos os tempos" e o famoso imperador dos tártaros. Melancólico por não poder ver com os próprios olhos toda a extensão dos seus domínios, Kublai Khan faz de Marco Polo o seu telescópio, o instrumento que irá franquear-lhe as maravilhas de seu império. Polo então começa a descrever minuciosamente 55 cidades por onde teria passado, agrupadas numa série de 11 temas: "as cidades e a memória", "as cidades e o céu", "as cidades e o mortos" etc.

O desejo de Khan é montar o império perfeito a partir dos relatos que ouve. São lugares imaginários, sempre com nome de mulher Pentesiléia, Cecília, Leônia.

Muralhas. Torres. Bichos rastejantes, peçonhentos, repelentes. Brejos ao lado de cachoeiras. Mundos ínferos percebidos pelos sentidos. Estátuas de bronze. Cristais. Uma imensa amplitude de territórios cercados de maravilhas. Cidades imagináveis. Cidades-armadilhas. Sentimentos e desejos contraditórios, reprimidos e gozados. Anastácia. Entre uma cidade e outra não se fala dos espaços que as separam. Entre um território e outro os intervalos não são visíveis. Percorre-se continentes, mas o trajeto é desconhecido, só se sabe da partida e da chegada. Literatura fantástica? Sensações de estranhamento no leitor perante o fascínio pelas aventuras que essas estranhas cidades oferecem. A excitação de Kubla Klan perante a narração de Marco Polo impulsiona suas narrativas a fermentarem outras, refluindo as recordações e dilatando sua imaginação, como nas Mil e uma noites.
(...)
Kublain Khan olha para seu imenso território e parece não conseguir vê-lo em toda a sua extensão. O objetivo desses relatórios seria tentar compreender as posses e os limites do Imperador, bem como os detalhes que não pudessem ser observados no momento das ocupações. A idéia de tempo parece ser projetada pelo autor, nessas passagens, na medida em que o território é a própria vida de um indivíduo e que suas acumulações materiais (a conquista em si dessas cidades) transformam-se em fatos, e as acumulações desses fatos tornam-se posteriormente eventos perdidos no passado. Mas o resgate, o relatório, pretende objetivamente restabelecer essa ligação, e é a partir de então que a memória é utilizada, ou melhor, forjada, inicialmente buscando uma imagem fiel daquilo que é o passado.

O erro dessa busca incessante por uma determinada verdade é que faz com que Khan perceba que seu império é recheado de problemas e falhas, um esfacelo sem fim e sem forma se transformando na própria realidade. É o desespero causado pelas tentativas ininterruptas de recuperação do passado almejadas pela História, do ponto de vista do senso comum. As narrativas fantásticas, o olhar detalhista e a percepção mínima dos eventos também conferem a Marco Pólo o lugar de viajante preferido, o principal relator de eventos. Nesse momento, o personagem veneziano passa da condição de mero viajante para um possível lugar de arquivista.

Ao final de As cidades invisíveis, Marco Polo discorre sobre as possibilidades da cidade perfeita, que poderá estar aflorando dispersa, fragmentada em algum lugar, e não como uma realidade pronta e totalizante. O que importa, diz ele, é procurar essa terra prometida visitada pela imaginação mas ainda não conhecida ou fundada. Não é possível, contudo, traçar a rota nos mapas para chegar até ela. A reação de Kublai Khan, o interlocutor do viajante veneziano, frente a essa impossibilidade, é dar a última palavra, quando ressalta nos seus mapas “as ameaçadoras cidades que surgem nos pesadelos e nas maldições” e conclui: “É tudo inútil, se o último porto pode ser a cidade infernal, que está no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito”. O imperador, assim, corrói as esperanças na utopia, quando a percebe subtraída, enquanto certeza, de seu horizonte de expectativas. À palavra que autoritariamente decreta e absolutiza, Marco Polo opõe, no entanto, um outro discurso que relativiza e contra-argumenta: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos”. Perfeição e inferno são, assim, termos em tensão, que não se anulam na visão das cidades contemporâneas. Parece que Italo Calvino aponta, com suas alegorias, para o esgotamento da cena moderna, para o ultrapassamento dos valores utópicos em que a modernidade se fundamentava.

 As cidades invisíveis de Ítalo Calvino são metáforas das nossas construções mentais e paralelamente, da incessante busca humana por significados. As cidades são construções feitas a partir da nossa memória que lhes dá valor e significado. A memória é o pilar dessas construções, edificações e estão interconectadas e vinculadas em nossos espaços geométricos através de ruas, cantos, esquinas (simbólicas) da nossa intrínseca mente e do nosso inconsciente, elas são misteriosas e inefáveis. Como poderia então ser descrita para alguém a cidade de Zaíra? Se ela só adquire significado, ou seja, se ela só toma forma, a partir daquilo que lhe atribuímos? Através das nossas lembranças, vínculos, identificações."


VER MAIS EM
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/a/as_cidades_invisiveis

10 abril 2013

Visão histórica e simbólica

Continuando as sugestões para treino de textos sobre Memorial, deixo um exemplo de 120 palavras:


                  “Memorial do Convento” apresenta, de forma irónica, a problematização da História, transmitindo simbolicamente a visão crítica de uma sociedade. Deste modo, o passado histórico reinventado é uma estratégia para refletir sobre a atualidade. São apresentadas de forma por vezes até caricatural e sarcástica, as situações de extremo desnível social e os contrastes gritantes entre ricos e pobres. O adultério e a corrupção de costumes, o clero dissoluto, um rei mesquinho, o poder da Inquisição são objeto de crítica.
            A esta visão histórica e crítica associa-se a visão simbólica. Aspetos como a vida e a morte, a arte, a transcendência, a condição humana, o amor, o sonho, a vontade a liberdade e a justiça social surgem representadas em “Memorial do Convento”.

Imagem - Auto de fé, no Terreiro do Paço, em Lisboa(Sec. XVIII)

Saber mais sobre a Inquisição, os autos de fé e ouvir música da época em:
http://www.geocities.ws/atoleiros/Inquisicao.htm


Ver o artigo completo, de onde foi extraído este excerto em:
MEMORIAL DO CONVENTO, in Site do Português, http://portuguesesas.no.sapo.pt/memorial.htm

A relação entre Baltasar e Blimunda

Baltasar e Blimunda


Cartaz do filme "Perhaps Love", em [URL: home.wangjianshuo.com/archives/2005]
“Memorial do Convento” - Baltasar e Blimunda -
A relação entre Baltasar e Blimunda é uma lição de vida. Ele é maneta, perdeu uma mão na guerra. Ela tem poderes sobrenaturais, vê o interior das pessoas. Fazem parte do povo, do mais baixo nível da sociedade, são alvos de injustiça, não têm bens materiais de valor, vivem as mais variadas dificuldades ... mas tudo isto é suportado por algo que hoje em dia parece estar em vias de extinção: o amor.
Mas falo de amor verdadeiro, não é daquele amor que algumas amigas dizem sentir umas pelas outras,uma semana depois de se conhecerem, ou daquelas pessoas que têm relações por interesse, como acontece também em “Memorial do Convento” entre D. João V e D. Maria Ana.
Falo do amor que tem a capacidade de unir duas pessoas numa só, capaz de fazer ultrapassar os mais variados obstáculos, capaz de dar força nos momentos mais críticos...isto sim, é amor verdadeiro! E é isso que acontece neste romance: só mediante um amor puro e verdadeiro é que este casal pôde enfrentar as adversidades que enfrentou, sempre unido, e mesmo quando a morte ameaçava ser o destino irreversível para Baltasar, Blimunda retirou-lhe a vontade, salvando-o: "Então Blimunda disse, Vem. desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda."

E é com base nesta história que faço um apelo à sociedade de hoje em dia e que sirva de exemplo. O dinheiro, o poder, os bens materiais...tudo isso é secundário e não vale de nada se não existir amor. O amor é a essência da vida! Amem-se uns aos outros, sejam unidos, lutem em conjunto, partilhem felicidade e tristeza. (...) E lembrem-se, nem todo o dinheiro do Mundo chega para comprar amor!

Assinado: Carlos Gonçalves 12º H nº4
05 Junho, 2008 20:23
José Saramago afirmou, há anos, numa entrevista: "Escrevo para compreender". O desafio que vos lanço não é menor: o de "ler para compreender". O quê?
Memorial do Convento ajuda-nos a compreender o quê?
Vai juntando os teus registos, notas, pensamentos, para depois redigires um texto pessoal.

19 março 2013

Atenção: livros para o Concurso!

Concurso

nacional de leitura


7ª Edição

2012 - 2013


2ª Fase – PROVAS DISTRITAIS
16 de abril| 3ª f.|13h30-17h30

3º Ciclo




Secundário



 
                                                                                           
Local: TORRE DO TOMBO

CALENDÁRIO NACIONAL
                        2ª Fase
Finais Distritais
Provas distritais
Auditório da Torre do Tombo, Lisboa

16 de abril
3ª Fase
Final Nacional
Prova nacional
[local e data a fixar]
PNL / RTP
[modelo de prova a determinar]
Final de maio de 2013


13 março 2013

Contributos - reflexão sobre a poesia de Caeiro e Reis

Peter Blau, Pintura em vidro 

"O meu Mestre Caeiro não era pagão, era o paganismo". Construa um texto de 80 a 130 palavras em que reflita sobre a aproximação de Ricardo Reis ao seu Mestre Caeiro.


Alberto Caeiro é o poeta da Natureza. O respeito pela simplicidade do que é natural reflete-se na sua poesia ("E ao lerem os meus versos pensem/Que sou qualquer coisa natural"). Proximamente, Ricardo Reis traduz nos seus poemas o sossego do campo e o fascínio pela Natureza ("Colhamos flores (...)/ E que o seu perfume suavize o momento"). Ambos revelam-se sensacionalistas, conjugando na sua poesia as várias sensações. Porém, enquanto para Ricardo Reis o momento deve ser vivido plenamente, mas com consciência que integramos um mundo racional e determinado ("Cada um cumpre o Destino que lhe cumpre), para Alberto Caeiro as realidades são sentidas naturalmente ("O mundo não se fez para pensarmos nele/(...) mas para (...) estarmos de acordo"), revelando o profundo paganismo, a ligação com a Natureza.
Ana Raquel
04 Abril, 2013 20:02
Ana Raquel disse...

Fazendo apelo à sua experiência de leitura, explicite o modo coo Ricardo Reis perspetiva a passagem do tempo e as implicações daí decorrentes. Escreva um texto de 80-130 palavras.



A poesia de Ricardo Reis traduz a fugacidade da vida e efemeridade da condição humana, ambas condicionadas pelo inexorável tempo ((...)no mesmo hausto/ Em que vivemos, morreremos"). Perante um futuro imprevisível ("Amanhã não existe"), o poeta busca uma existência sem inquietações nem angústias, aceitando a relatividade dos momentos. Ricardo Reis considera importante aproveitar o momento, o prazer de cada instante, celebrando o carpe diem ("Colhe/ O dia, porque és ele"). Por outro lado, procura um prazer moderado e livre da dor. O poeta está consciente de que tudo é transitório ("Tão cedo passa tudo quanto passa") e busca disciplinadamente estar preparado para a morte - o fim do tempo - ("Não tenhas nada nas mãos").


Ana Raquel

Para ir adiantando


Balanço do 2º período

Nº__________Nome _________________________________________________________________________

1. Exercícios Escritos
Resultado
Lacunas, problemas detetados e sugestões de melhoria apresentados pela professora
1.




2. T. Intermédio






2. Outros trabalhos escritos e orais
Escrita
Trabalho
Indiv.
Grupo
Observações (qualidade do que fiz, o que aprendi, dificuldades…)












Oralidade
Expressão oral formal / apresentação de trabalho de análise



Leitura(s) em voz alta
1_____ 2-3______ 4 ou mais ___



Outro(s)



Gramática/Estilística
Fichas e exercícios – do caderno de exercícios (indicar as matérias):





Fichas e exercícios – do Manual (indicar as páginas):





Classificação do 1º período____________
Classificação esperada no 2º período_________
Objetivo para o 3º período___________
Frequência do apoio no 2º período____________ vezes

Razão: ____________________________________________
Tipo de ajuda necessária para cumprir o objetivo para o 3º período