A
nível temático e de motivos poéticos há elementos recorrentes, que
atravessam
muitos dos poemas e marcam o conjunto da poesia ortónima:
*Multiplicidade do
"eu"/Identidade fragmentária: buscar a unidade na diversidade
*Consciência
do absurdo da existência
*Tensão entre pares
dicotómicos: sinceridade/fingimento, consciência/inconsciência,
sonho/realidade; sentir/pensar, pensamento/vontade, esperança/desilusão
*Anti-sentimentalismo:
intelectualização da emoção - "Tudo o que em mim sente/'stá
pensando"; "Sentir?/Sinta quem lê!"
*Estados associados à "dor
de viver", à inquietação metafísica: solidão, tédio, angústia, cansaço,
cepticismo.
*O
'vício' da auto-análise - o olhar para dentro; o "eu" como espectador
consciente de si próprio
*A
nostalgia da infância, como tempo irrecuperável, paraíso perdido.
Marcas da escrita
Elementos
formais tradicionais:verso
geralmente curto (2 a 7 sílabas
métricas), musicalidade - aliterações,
transportes (dum verso para outro ou de uma estrofe para seguinte), rimas, ritmo, bem como o predomínio da quadra e da quintilha,
revelam a fidelidade formal à tradição poética portuguesa,
utilizando elementos formais
tradicionais (verso curto; rima; proximidade, por vezes, da quadra popular
ou da canção de embalar) num conjunto de poemas
que tencionava publicar sob o título de Cancioneiro, os quais se inserem numa tradição lírica com origem nos
Cancioneiros Primitivos.
“Cancioneiro é, como a mesma palavra o diz, uma colectânea de
Canções. Canção é propriamente, todo aquele poema que contém emoção bastante
para que pareça ser feito para se cantar, isto é, para nele existir
naturalmente o auxílio, ainda que implícito, da música." F. Pessoa
Linguagem
aparentemente simples, mas muito expressiva, extraindo novos sentidos de
vocabulário vulgar, ou alterando a sintaxe dos verbos, por ex.
transformando em transitivo um verbo intransitivo; uso frequente de frases
nominais; predomínio da ordem directa.
Comparações,
metáforas originais, antítese (expressão de opostos) e oxímoros (vários
paradoxos – pôr lado a lado duas realidades completamente contraditórias ).
Uso
de símbolos, por vezes tradicionais: o rio, a água, o mar, a
brisa, a fonte, as rosas, o azul.
Mais um contributo para a leitura de Fernando Pessoa ortónimo
A poesia de Fernando Pessoa ortónimobaseia-se em binómios e em interpretações antagónicas, tais como a antítese consciência/inconsciência, pela qual o poeta mostra, nos vários poemas, uma predilecção. A inconsciência inocente que o autor cobiça está associada a um sentimento de leveza e liberdade, a uma nostalgia dos tempos de infância, a que faz constantemente referência. O desencanto e a angústia pelo presente provocam nele uma certa inveja pela felicidade inconsciente de outros, tal como é perceptível quando escreve: “Gato que brincas na rua/ Como se fosse na cama/ Invejo a sorte que é tua/ Porque nem sorte se chama” ou quando se dirige à ceifeira: “Ah, poder ser tu, sendo eu!/ Ter a tua alegre inconsciência”.
Outra das marcas na poesia de Fernando Pessoa é o binómio sentir/pensar, que está presente, por exemplo, em "Autopsicografia": “Gira, a entreter a razão/ Esse comboio de corda/ Que se chama o coração”, mencionando o efeito de distracção que o coração pode provocar na razão. Esta ideia também está presente nos versos “Eu simplesmente sinto/ Com a imaginação/ Não uso o coração”, onde o poeta evidencia a intelectualização das emoções.
Um dos pontos fulcrais para Fernando Pessoa, na poesia ortónima, é a sua auto-descoberta, focando-se o sujeito poético nas questões mais complexas e longínquas do ser, que lhe despertam uma angústia perante si próprio: “ Querendo, quero o infinito./ Fazendo, nada é verdade./ Que nojo de mim me fica.”
Fernando Pessoa, servindo-se dos seus poemas reflexivos, onde a musicalidade e o ritmo estão sempre presentes, procura conhecer a humanidade através da exploração de si próprio, como refere o semi-heterónimo Bernardo Soares:Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento.
Na discussão do livro 1984, os intervenientes defenderam que sem memória não existimos;
aqui fica, pois, um testemunho da apresentação e discussão de leituras escolhidas pelo 12ºA.
Atenção: muitos destes livros constituem um grave perigo para a saúde dos conformistas, dos indiferentes, dos egocêntricos, dos que «Vive[m] porque a vida dura»
A alegoria - um mundo imaginário, para nos ajudar a pensar no mundo real -
«Não podemos abdicar do valor da liberdade!»
«Não podemos abdicar da memória: sem memória não existimos.» «A nossa liberdade ou a nossa escravidão começa no pensamento» - ideias defendidas pelos leitores, na discussão sobre o livro 1984-
A Lenda e a História - porque as coisas nem sempre são o que parecem... -
A ficção científica
- maneiras presentes de pensar o futuro, que é uma das formas de repensar o presente -
Alguns dos livros que lemos e discutimos
"O sistema era simples. Toda a gente compreendia. Os livros deviam ser
queimados, juntamente com as casas onde estavam escondidos...
Guy Montag era um bombeiro cuja tarefa consistia em atear fogos, e
gostava do seu trabalho. Era bombeiro há dez anos e nunca questionara o
prazer das corridas à meia-noite nem a alegria de ver páginas consumidas
pelas chamas... Nunca questionara nada até conhecer uma rapariga de
dezassete anos que lhe falou de um passado em que as pessoas não tinham
medo. E depois conheceu um professor que lhe falou de um futuro em que
as pessoas podiam pensar. E Guy Montag apercebeu-se subitamente daquilo
que tinha de fazer... b
De implicações assustadoras, a forma como reconhecemos o nosso mundo naquele que é retratado em Fahrenheit 451 é impressionante." (Plano Nacional de Leitura|Livro recomendado para o Ensino Secundário).
"Toda a história roda em torno do astronauta Mark Watney, que no meio do
caos gerado por uma inesperada tempestade em Marte é deixado para trás
no planeta vermelho, com os seus colegas de missão a julgarem-no morto e
a partirem na única nave presente no planeta, a Hermes.Completamente sozinho no
planeta, é graças ao apego ao pormenor e ao detalhe que consegue
manter-se vivo, alimentado pela esperança de que um dia alguém o
resgate; um dia, sim, porque uma missão a Marte demora meses a ser
concluída, entre preparativos e a própria viagem. E a nave que o
abandonou não pode simplesmente fazer inversão de marcha. Assim, para se
manter vivo o máximo de tempo possível, Watney tem de preparar
minuciosamente todos os passos dados, pois a mínima falha pode
revelar-se fatal. (...)Improvisando com o que tem à mão, vai encontrando soluções para o seu
dia a dia, mas, dado que se encontra num ambiente «hostil», são inúmeros
os contratempos com que se depara. (Ler artigo completo)
Baseado em documentos históricos genuínos e fundamentalmente no trabalho do historiador Augusto Mascarenhas Barreto (The Portuguese Columbus: Secret Agent of King John II, 1992, McMillan Edition), (...) O Codex 632
conta a história de uma investigação em torno da possibilidade de
Cristóvão Colombo ser português, apoiando-se em lacunas do percurso do
navegador cuja identidade e missão continuam a suscitar dúvidas.
"O Codex é a história dos Descobrimentos contada através do
mistério da identidade do Colombo. Pode-se gostar ou não gostar, mas se
se olhar de boa fé percebe-se que nunca a história dos Descobrimentos
foi contada daquela maneira, quase detectivesca."José Rodrigues dos Santos (ler entrevista)
-----------------------A História
"Muitas histórias correram sobre a humilde mulher que, em 1385, numa
aldeia perto de Alcobaça, pôs a sua extrema força e valentia ao serviço
da causa nacional, ajudando assim a assegurar a independência do reino,
então seriamente ameaçada por Castela.
É nos seus lendários feitos e
peripécias, contados e acrescentados ao longo dos tempos, que se baseia
este romance, onde as intrigas da corte e os tímidos passos da rainha-
infanta D. Beatriz de Portugal se cruzam com os caminhos da prodigiosa
padeira de Aljubarrota, Brites de Almeida, símbolo máximo da resiliência
e bravura de todo um povo."
"Um acontecimento real - as sucessivas mortes de pessoas provocadas por
ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique - é pretexto
para Mia Couto escrever um surpreendente romance. Não tanto sobre leões e
caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas." ( Plano Nacional de Leitura, Livro recomendado)
"(...) afigura-se subtil e inteligente o modo de empurrar o leitor para o
verdadeiro tema deste romance, que não é a caça (essa “alucinada
vertigem” que acontece nas “costas da razão”), nem o receio da força
bruta animal ou a “gestão das coisas invisíveis”, mas a trágica e
“infindável” guerra entre homens que sempre abusaram do seu poder e
mulheres educadas para a renúncia." José Mário Silva, Expresso
"Winston, herói de 1984, último
romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de
uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito
coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância
do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder
cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico." (In Companhia das Letras)
"1984 oferece hoje uma descrição
quase realista do vastíssimo sistema de fiscalização em que
passaram a assentar as democracias capitalistas. A electrónica
permite, pela primeira vez na história da humanidade, reunir nos
mesmos instrumentos e nos mesmos gestos o trabalho e a
fiscalização exercida sobre o trabalhador. O Big Brother já não é
uma figura de estilo - converteu-se numa vulgaridade quotidiana." In Wook
(Plano Nacional de Leitura, Livro recomendado para o Ensino Secundário)
Para os casos de .......... e ........ (you know...), deixo informação adicional sobre a PONTUAÇÃO. Toca a passar para o caderno! O quê?...Qual vergonha, vergonha é continuar a perder imensos pontos em teste por causa de um problema solucionável!
As boas gramáticas e os bons prontuários (sim, há na Biblioteca!) têm isto e muito mais.
O dicionário terminológico refere-se à vírgula do seguinte modo:
Sinal
de pontuação utilizado em vários contextos, como por exemplo a
intercalação de orações subordinadas adverbiais numa frase (i), a
intercalação de um modificador entre um verbo e o seu complemento (ii)
ou após um advérbio conectivo em início de período (iii).
Exemplos
(i) Os rapazes, quando chegaram a casa, fartaram-se de comer.
(ii) Os rapazes falaram, com muito maus modos, à avó.
(iii) Os rapazes estão cansados. Porém, continuam a correr.
Vamos especificar alguns casos
VÍRGULA OBRIGATÓRIA 1. Use a vírgula para separar elementos sequenciais ou termos de uma enumeração
Ex:
Comprei livros, cadernos, uniforme, borrachas e lápis.
Como regra geral, não se usa vírgula antes de “e”. Há um caso específico em que se usa (ver adiante).
Um outro exemplo:
A sua fronte, a sua boca, o seu riso, as suas lágrimas, enchem-lhe a voz de formas e de cores… (Teixeira de Pascoaes)
2. Use a vírgula para separar o vocativo
O
vocativo é sempre separado por vírgula, quer seja em posição inicial,
quer ocorra no meio ou no final da frase, como nos 3 exemplos seguintes:
Manuel, vai abrir a porta.
Posso afirmar-lhe, minha Senhora, que o seu irmão não passou por aqui.
Vem cá, João. 3. Use a vírgula para isolar o nome de um lugar quando se escreve a data
Ex: Torres Vedras, 12 de junho de 2013.
4. Use a vírgula para separar explicações intercaladas no meio da frase
Assim, fica entre duas vírgulas qualquer palavra, expressão ou frase intercalada numa oração:
Exs.
Os portugueses, claro, gostam de praia.
Os Ingleses, não haja dúvida, constituem um povo essencialmente prático.
Amar as árvores, disse um grande homem, é amar a terra.
Afinal, as explicações que interrompem a frase são mudanças de pensamento e devem ser separadas por vírgula.
Outros exemplos:
Pedro, o aluno que trazia o computador, não veio hoje.
Dá-se
uma explicação sobre quem é Pedro. Se tivéssemos que classificar
sintaticamente esse elemento, seria um modificador apositivo.
Eu e tu, que somos amigos, não devemos zangar-nos por tão puco.
O trecho destacado explica algo sobre “Eu e tu”, portanto deve vir entre vírgulas.
A classificação do elemento entre vírgulas seria oração subordinada adjetiva relativa, com antecedente, explicativa.
5. Use a vírgula para separar o lugar, o tempo ou o modo que vier no início da frase.
Quando um tipo específico de expressão — que indique tempo, lugar, modo e outros — iniciar a frase, usa-se vírgula.
Exemplos:
Hoje, o sol está de rachar!
No primeiro capítulo da obra, D João V faz a promessa da construção do convento.
De um modo geral, não gostamos de pessoas estranhas.
“De um modo geral” é sinónimo de “geralmente”, adv. de modo, por isso vai vírgula.
6. Use a vírgula para separar orações independentes
Orações independentes são aquelas que têm sentido, mesmo estando fora do texto.
É o caso das coordenadas assindéticas (o «e» não está lá mas as orações são - na mesma - coordenadas):
Abriu a mala, retirou uma carta, estendeu-a ao advogado.
Nesse exemplo, cada vírgula separa uma oração independente.
7. Use a vírgula depois da partícula não no princípio da oração, se refa frase não for negativa
Não, é impossível satisfazer o seu desejo. (diferente de «não é possível...)
Não, foi inacreditável. (diferente de «não foi inacreditável...)
Emprega-se também a vírgula depois de sim, no princípio de qualquer oração.
Sim, vou ao cinema.
Sim, depois falamos. 8. Use a vírgula quando os sujeitos de duas orações interligadas são diferentes.
Como regra geral, não se usa vírgula antes de “e”.
Todavia,
usa-se quando a frase depois do “e” se refere a uma pessoa, coisa, ou
objeto (sujeito) diferente da que vem antes dele. Assim:
O sol já ia fraco, e a tarde era amena. (Graça Aranha)
Note
que a primeira frase se refere ao sol, enquanto a segunda fala da
tarde. Os sujeitos são diferentes. Portanto, usamos vírgula.
Outro exemplo:
A mulher morreu, e cada um dos filhos procurou o seu destino (Fernando Namora)
A primeira oração diz respeito à mulher, a segunda aos filhos.
9. Use a vírgula com os conetores porém, todavia, contudo, no entanto, portanto, por conseguintes e por consequência.
Estes elementos podem aparecer:
- seguidos de vírgula, quando se encontram no início do período ou depois de /;/
Porém, até os bravos têm medo.
Tenho vontade de viajar; porém, não tenho meios.
- entre vírgulas, quando se encontram após um dos termos da oração a que pertencem.
Esse objetivo, porém, não é facilmente alcançável.
10. Use vírgula antes de quem, se esta partícula é acompanhada de preposição.
Meus pais, a quem muito quero...
Aquela filha, a quem tanto se dedicou, foi ingrata.
João, de quem recebi tantas provas de estima...
VÍRGULA ...nem sempre
Há casos como o que ...em que tens de ver primeiro. Assim:
Com o que Antes do pronome relativo que, apenas se coloca vírgula se este introduz uma oração explicativa. EX. Encontrei ontem o teu primo António Maria, que me ofereceu uma bebida. Restavam apenas alguns soldados, que combateram heroicamente. O Pedro, que é simpático, ajudou-me a levar os caixotes.
(Mas não há /,/ em : Não sei se estamos longe da terra a que nos
dirigimos.| Este é o lugar histórico em que Vasco da Gama embarcou.|Um
rapaz que é simpático ajuda sempre os colegas)
VÍRGULA FACULTATIVA
Existem casos em que a vírgula é opcional?
Se o elemento referente a tempo, modo, lugar etc. não for uma
expressão, mas sim uma palavra só, então a vírgula é facultativa. Vai
depender do sentido, do ritmo, da velocidade que você quer dar para a
frase. Exemplos: Depois vamos sair para jantar. Depois, vamos sair para jantar. (Dá mais destaque ao «depois»)
Geralmente gosto de almoçar na escola. Geralmente, gosto de almoçar na escola. (Supõe que se abriu uma exceção ao que é habitual)
NÃO SE USA VÍRGULA
Não se usa a vírgula! - Entre o sujeito e o predicado: O João, gosta de comer pizzas. * A Alice, a Maria e a Luísa, querem ir ao cinema.*
Corretamente: João gosta de comer pizzas. A Alice, a Maria e a Luísa querem ir ao cinema.
NÃO SE USA VÍRGULA - Entre o verbo e os seus complementos diretos ou indiretos.
As pessoas mal-educadas não podem merecer a estima de ninguém. Emprestei o livro de Geografia ao professor.
Exemplar de Os Lusíadas (1572) existente em Austin, Texas
Na
sequência do texto informativo que trabalharam no exercício, foi possível
localizar o artigo no Jornal PÚBLICO (ver artigo completo). Assim, percebe-se
melhor a questão das «marginálias» e do interesse que este exemplar desperta.
Particularmente interessante é a imagem que acompanha o artigo e a referência
ao escritor Jorge de Sena, que na altura da compra era professor de Literatura
de Língua Portuguesa na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos.
Camões no Texas
Cláudia Silva(em Austin)
O centro de investigação Harry Ransom da Universidade do Texas em Austin possui um dos raros exemplares da primeira edição de Os Lusíadas ,
impressa em 1572, em Lisboa. Camonianos defendem que este exemplar
pertenceu ao poeta português, sendo por isso conhecido como o “de
Camões”.
Ler e examinar um dos raros exemplares sobreviventes da primeira edição de Os Lusíadas
– poema épico de Luís de Camões (1524?-1580) –, impressa em 1572, é
uma cerimónia quase religiosa, como se tivéssemos ido parar a uma cena
do filme O Nome da Rosa .
Esta experiência pode ser realizada no Harry
Ransom Center (HRC), Centro de Investigação de Humanidades no campus
da Universidade do Texas em Austin (UT Austin), onde está o exemplar
que dizem ter pertencido ao próprio Camões e é um dos mais importantes
entre os 34 que existem espalhados por três continentes.
Antes
mesmo de entrar no edifício do HRC, o visitante já tem, do lado de fora,
uma ideia do incrível acervo que o edifício abriga. Nas fachadas de
vidro estão impressas várias imagens – retratos de escritores e textos
dactilografados – que evocam o arquivo. Lá dentro, na biblioteca, no
segundo andar do edifício, quem quiser ver a primeira edição de Os Lusíadas
tem de criar uma conta de investigação, na página Web do HRC, e
assistir a um vídeo de dez minutos para aprender como se devem manusear
livros raros e quais os procedimentos de segurança.
Qualquer pessoa
pode ver a obra, mas estes requisitos são obrigatórios para se ter
acesso à sala de visualização. É também recomendável contactar a
instituição com 24 horas de antecedência, porque o livro está guardado
num cofre.
Depois de feita a requisição da obra, uma das
bibliotecárias aproxima-se, segurando com as duas mãos uma caixa
vermelha de capa dura. Com muito cuidado desata os laços, abre a caixa,
põe-na sobre a mesa, retira o livro e pousa-o sobre suportes revestidos
de veludo. O visitante pode então folhear o livro, tentar ler as
marginálias (comentários escritos à mão nas margens), com a ajuda de
duas lupas, identificando as diferenças ortográficas em relação aos dias
de hoje. Céu era ceo, muito era muy, e as palavras hoje terminadas em ão acabavam em am. Não era nam.
A experiência de ver o exemplar de Os Lusíadas,
considerado o mais importante dos que existem por conter manuscritos de
uma testemunha ocular da morte de Luís de Camões, é entendida por
alguns como um mapa literário para regressar ao passado. A jornalista
brasileira Heloísa Aruth Sturm, quando era estudante de mestrado na
Universidade do Texas, em 2010, analisou este exemplar durante um
semestre para a disciplina de História do Livro. Todos os alunos tinham
de escolher um livro raro, analisá-lo e escrever um artigo académico.
Interessada em literatura colonial, Heloísa soube desta cópia de Os Lusíadas
através do seu orientador, Ivan Teixeira, investigador brasileiro e na
altura professor na UT Austin. A aluna ia pelo menos uma vez por semana
ao HRC para analisar Os Lusíadas. Tinha medo de danificar o
livro, por isso usava sempre luvas para o folhear. Sentia-se “num
convento em pleno século XVI”. A paranóia era tão grande, diz ela, que
“às vezes, até tomava cuidado para não ficar respirando em cima do
livro”.
A edição “de Camões”
No entanto, não
são muitos os que vivem esta experiência literária de Heloísa. Richard
W. Oram, curador de livros raros do Harry Ransom Center, desde 1991, diz
que este exemplar de Os Lusíadas raramente é
requisitado. Porém, a sua aquisição pela Universidade do Texas tem sido
de extrema utilidade para produção académica mundial sobre a obra de
Camões.
K. David Jackson, director dos estudos de Português, na
Universidade de Yale, foi professor na Universidade do Texas em Austin,
entre 1974 e 1993. Conta ao PÚBLICO, por email, que a universidade já
tinha adquirido o livro quando ele foi contratado por esta instituição
texana. E quando deu um seminário no Harry Ransom Center usou o livro
como recurso. Na altura, mostrou-o à filóloga italiana e especialista em
literatura medieval portuguesa Luciana Stegagno Picchio (1920-2008) e
“ela ficou fascinada” com os comentários escritos à mão nas margens do
livro, a marginália. Em 2003, o investigador publicou um CD-ROM, Luís de Camões e a Primeira Edição d’Os Lusíadas, 1572, com 29 exemplares da primeira edição, de várias bibliotecas internacionais.
O
trabalho foi apresentado na Fundação Luso-Americana, em Lisboa. Na
introdução textual desse CD, K. David Jackson explica que este exemplar
foi essencial e de extrema influência para a academia, por causa das
suas qualidades raras, como o “comentário marginal assinado por frei
Joseph Índio, padre do Sul da Índia, convertido ao cristianismo, que
Camões deveria ter conhecido, que era pelo menos 30 anos mais velho do
que ele, tendo chegado a Lisboa em 1501 com a frota de Cabral.” O
que atesta a relação entre esse frei e Camões são os manuscritos nas
margens nas primeiras páginas do volume. Todas estes dados levaram os
investigadores a referir-se a este exemplar como "de Camões". Dizem que o
poeta o teria consigo, quando frei Joseph o terá assistido no leito de
morte.
“De Camões” para os Estados Unidos Parte
da marginália é em espanhol, incluindo traduções de palavras
portuguesas. Este facto permitiu aos investigadores concluírem também
que este exemplar pertenceu ao “Convento de Carmelitas Descalços de
Guadalcázar”, em Espanha, da ordem a que pertencia frei Joseph Índio
desde que chegou a Portugal. Tudo indica que o padre levou consigo o
exemplar de Portugal para Espanha ainda no século XVI, logo após a morte
de Camões, como explica K. David Jackson no CD-ROM. Diz ainda o
investigador americano, no seu artigo de introdução ao CD-ROM, que no
século XIX o livro chegou às mãos do diplomata britânico John Hookam
Frere (1769-1846), em Sevilha, e, em 1812, foi doado para a Holland
House, onde permaneceu durante mais de um século, com excepção de um
empréstimo de curta duração a Sousa Botelho, morgado de Mateus, que o
usou para preparar a sua própria edição de Os Lusíadas, publicada em Paris em 1817.
Foi
na década de 1960 que o livro foi levado para os Estados Unidos,
tendo-se então iniciado negociações para a sua compra pela Universidade
do Texas. K. David Jackson conta-nos que em 1966 o poeta e dramaturgo
português Jorge de Sena (1919-1978), na época professor de Literatura de
Língua Portuguesa na Universidade de Wisconsin, apanhou o autocarro em
Madison, Wisconsin, onde morava, e viajou durante cerca de 20 horas para
chegar a Austin, capital do Texas, para avaliar o exemplar e dar
consultoria aos curadores do HRC. (...) Aí descobrimos que a obra de Camões custou à universidade um
pouco mais de cem mil dólares, incluindo seguro e transporte, valor que
corresponderia hoje a cerca de 600 mil dólares.
O dilema das duas edições
O
exemplar adquirido pela Universidade do Texas tem sido de extrema
relevância para os investigadores por ter ajudado a desmistificar as
supostas duas edições de 1572. A pesquisa sobre os problemas associados à
primeira edição tem-se estendido por mais de três séculos, escreve o
investigador de língua e cultura portuguesa na Universidade de Yale K.
David Jackson na introdução textual do CD-ROM.
Tudo começou em 1685, quando um grande comentarista de Os Lusíadas
observou pela primeira vez que a imagem do pelicano no frontispício (ou
folha de rosto) estava virada em alguns exemplares para o lado esquerdo
do leitor, e em outros para o lado direito. Observações posteriores
identificaram outras diferenças que pareciam estar associadas à posição
do pelicano, como a leitura do sétimo verso da primeira estrofe, que
começa “E entre” no caso do pelicano “à esquerda,” e “Entre” no caso do
pelicano “à direita”. As duas edições ficaram conhecidas como “Ee” e
“E”. O exemplar guardado no Harry Ransom Center classificar-se-ia como
“E”. Mas K. David Jackson refere-se a estas duas edições como um mito
que se fixou no imaginário português.
Desde então, vários
investigadores têm-se dedicado a responder à questão: se há duas edições
diferentes, duas impressões do mesmo impressor, ou ainda uma edição
autêntica e outra falsa(...).
Conforme os escritos académicos de K. David Jackson, Os Lusíadas
é o décimo sexto título publicado pela tipografia e o sexto em língua
portuguesa. Foi impresso por António Gonçalves, que tinha oficina
própria, em Lisboa, na Costa do Castelo.
Apesar de não ser muito
usado, este volume pode ser de extrema valia para várias áreas de
investigação. Afinal, como diz o historiador inglês Peter Burke,
professor emérito em Cambridge, as marginálias funcionam como uma
“evidência da recepção daquilo que o autor emite ao leitor.” Marginálias
dos séculos XV e XVI são entendidas, por alguns investigadores, como a
primeira forma de hipertexto, de narrativa não linear. Peter Burke
defende que as marginálias expressam o que o leitor considera
importante, aprova ou desaprova numa leitura.
[Assim como] há pessoas que nunca se apaixonam, (...) e há pessoas que nunca
viajam, suponho que há pessoas que não têm uma certa experiência do
mundo. E da mesma maneira, existem muitas pessoas que não são leitoras.
Mas a possibilidade está dentro de nós.
Rene Magritte
A escola, a
universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre,
onde se aprende a pensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é
algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os
centros de ensino em centros de treino. Estamos a criar escravos. Somos a
primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem
qualquer sentimento de culpa.
Ler os clássicos na escola continua a fazer sentido. “Os Lusíadas” de Camões, por exemplo. Claro
que continua. Os grandes clássicos não foram escolhidos por ninguém;
não há um comité que decide que Homero é importante. O que houve foram
cem gerações de leitores que disseram que esse livro é importante. É
isso que define o clássico, é a obra que não se esgota junto dos seus
leitores. E isso continua a ser importante.
Alberto Manguel
(ensaísta, escritor, autor de “Uma História da Leitura", best-seller mundial). In Jornal PÚBLICO http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/alberto-manguel-estamos-a-destruir-o-valor-do-acto-intelectual-1445234
ESTÁ NA HORA DE APRONTAR AS LEITURAS
- PARA PARTILHAR - ORALMENTE E/OU POR ESCRITO
Quem quiser participar no Concurso Nacional de Leitura (1ª fase - escola:1ª semana de janeiro), pode contar com a minha ajuda. Já sabem que os livros para a prova do Secundário são
Já agora, que há listas para tudo - e desde que se não levem demasiado a sério podem ser úteis - fica uma das muitas listas de os-100-melhores-livros-de-todos-os-tempos
Obrigada a todos os que utilizam este espaço em volta da leitura e da língua e dos escritores e das ideias e do mundo; do mundo que é o nosso, aqui, agora, porque amanhã somos nós daqui a pouco.
Para celebrar, imagens da Exposição Fernando Pessoa - Plural como o Universo, inaugurada em S. Paulo e que veio depois para a Fundação Gulbenkian.
A maior homenagem - a este espaço e a Fernando Pessoa - é ler o que escreveu
Terminamos aqui a publicação de trabalhos da série CAMÕES, HOJE.Publicamos todos em sequência, porque fazem mais sentido assim.
Ler CAMÕES não precisa de pretexto, vale por si. Mas ler faz sempre mais sentido se for para entendermos melhor quem somos, o que queremos, que mundo é este que nos rodeia.
Prossegue a publicação de trabalhos apresentados e discutidos em aula, no âmbito do tema geral «CAMÕES, HOJE», com origem na análise de OS LUSÍADAS - as Reflexões do Poeta.
Conforme acordado, vamos começar a publicar os vídeos - na sua versão final - relativos ao tema «Reflexões do Poeta - Camões, hoje»,em que procurámos refletir sobre o Portugal presente, aceitando o desafio crítico de olhar o nosso mundo, tendo por base a análise das Reflexões do Poeta e usando para mote de cada trabalho versos de Os Lusíadas.
CAMÕES, «QUEM NÃO SABE ARTE, NÃO NA ESTIMA»,C. V, est. 97
MEMÓRIA DESCRITIVA Os vídeos que iremos publicar foram realizados na sequência do estudo de Os Lusíadas.
Ponto de partida: as Reflexões do Poeta Proposta: pesquisa de informação factual e documentada em sítios de referência+tomada de notas+seleção e organização de informação com coesão e coerência+realização de trabalho em suporte vídeo.
Respeitar o propósito reflexivo e crítico, bem como o enquadramento no tema - tomando para mote verso ou versos da Reflexão analisada
Realizar um vídeo de c. 3 minutos sobre o nosso presente - se Camões vivesse hoje, dentro desse tema, que motivos de reflexão, reparo ou crítica encontraria?
Seleção temática: Canto V - falta de cultura e de apreço pelos poetas que os Portugueses revelam Canto VI - verdadeiro e árduo caminho da fama e da glória Canto VII - o espírito dos portugueses e a referência a vários povos da Europa Canto VII - os contemporâneos ambiciosos que exploram e oprimem o povo Canto VIII - o poder do dinheiro Canto IX - o caminho para merecer a fama.
Pintura reproduzida: Camões; pintor - Costa Pinheiro (séc. XX)
(Atlântico Norte, entre a Escócia e a Islândia; são território Dinamarquês)
Depois de tanto poema trabalhado, não se esqueçam também das informações contidas em edições mais antigas mas que têm matéria relevante, em especial sobre a estrutura de MENSAGEM e os símbolos mais relevantes (de 9 a 17 de novembro).
Cheguem cedo! Não é difícil, mas têm muito que ler, pensar e escrever...