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16 abril 2024

Poetas contemporâneos - leituras

Bibliografia Manuel Alegre:
Nasceu a 12 de maio de 1936 em Águeda. Estudou direito na Universidade de Coimbra. Em 1963 foi preso pela PIDE e um ano depois exilou-se em Paris, só voltando a Portugal depois do 25 de abril. Mais recentemente, em 2005, candidatou-se à presidência da república tendo sido o segundo candidato mais votado. Paralelamente com a sua vida política, Manuel Alegre, escreveu diversos poemas como a “Praça da Canção” e o “Auto de António”. Escreveu também, alguns livros tanto de ficção como de literatura infantil.

Bibliografia Ruy Belo:
Nasceu a 27 de fevereiro de 1933 em Rio Maior. Eatudou direito na Universidade de Coimbra e depois na de Lisboa. Foi considerado um dos mais conseituados poetas portugueses da segunda metade do século XX. Foi professor universitário em Madrid e professor na Escola Secundária Ferreira Dias. Escreveu, durante a sua vida, diversos poemas como “Aquele grande rio Eufrates” e “E tudo era possível”. Morreu em Queluz no dia 8 de agosto de 1978.

Bibliografia Alexandre O'Neill:
Nasceu em Lisboa a 19 de dezembro de 1924 e foi um dos poetas fundadores do movimento surrealista português, foi preso diversas vezes pela PIDE. Publicou poesia mas também prosa e traduções. Escreveu o slogan “Há mar e mar, há ir e voltar”. O poeta português só foi reconhecido como tal em 1958. Escreveu “Há palavras que nos beijam” e “Feira cabisbaixa”. Morreu em Lisboa a 21 de agosto de 1986.
***
“E tudo era possível” 
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

                                                              Ruy Belo, Homem de Palavra[s]
                  
Leitura 1. (Afonso e Alexandra)
O grande tema é o sonho e como ele pode ser o “motor” da vida. O sujeito poético reflete sobre a sua infância e juventude, mostrando uma grande vontade de regressar a esses tempos. Apresenta-se a dicotomia “antes” e “agora”. O “antes” corresponde à idade da infância caracterizada pela despreocupação. O “agora” corresponde à idade adulta.

Leitura 2. (B.Bento e B. Lucas)
Neste poema, Ruy Belo faz referência a um tempo de sonho, esperança, alegria e inocência reforçando o poder da imaginação e da inconsciência na construção de uma ideia de mundo.
Contudo, o poeta caracteriza a juventude como uma fase alheia a uma realidade, sem responsabilidades nem preocupações. Este poema reproduz no leitor um sentimento de nostalgia relativamente às lembranças da juventude.
Assim, este poema remete-nos para um confronto entre o nosso tempo de infância e a realidade adulta, em que se intensifica a dificuldade da tomada de decisões.
“Letra para um hino”
É possível falar sem um nó na garganta
É possível amar sem que venham proibir
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetecer dizer não grita comigo: Não.

É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

                                                      Manuel Alegre 

Leitura 1.
O poema é uma exortação à ação de modo a atingir a liberdade. A grande mensagem está presente no vocábulo “hino”. Este representa um apelo à ação para a libertação da vida vivida com a finalidade de alcançar a vida sonhada/possível. Neste poema está presente uma relação de oposição entre a “terra” - «olhar para o chão» e o “céu” - «Os teus olhos nasceram para olhar os astros». A “terra” ilustra a vida submissa e sem ânimo. O “céu” representa a vida sonhada/idealizada, a que todos os homens têm direito. (Afonso e Alexandra)

 Leitura 2.
O poema “Letra para um hino” (página 212 do Manual) é um hino à sociedade livre, uma crítica à ditadura e uma demonstração de honra, coragem e olhar destemido em relação ao mundo. Foi escrito em 1967, em pleno regime ditatorial. Sendo o “hino” uma composição poética em honra da nação, o próprio título do poema dá a ideia que os versos de Manuel Alegre deveriam ser os ideais da nação, ao contrário dos ideais que a ditadura impõe. (Diana e Daniel)

 O poema assenta na anáfora (repetida doze vezes) - «É possível», essencial à compreensão da mensagem essencial - a de que a liberdade e a esperança não eram impossíveis em Portugal, a de que é necessário e «possível» insurgir.-se, dizer «não» - "Se te apetecer dizer não grita comigo: Não.".
A sociedade repressiva e autoritária existente no país é caracterizada pela evocação da falta de liberdade de expressão - «com um nó na garganta», «amar sem que venham proibir», «viver sem que seja de rastos», a pobreza e a subserviência - «o pão», «murchar», «domem». 
Para o poeta a condição de homem - «ser homem» - é indissociável da liberdade, pelo que o poema finaliza com a tripla repetição do adjetivo - «livre, livre, livre».

“Há palavras que nos beijam” 
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'
“Há palavras que nos beijam”

Este poema revela a capacidade que as palavras têm de despertar em nós diversos sentimentos como o amor e a esperança, apenas pelo simples facto de serem mencionadas, ouvidas ou pensadas. As palavras são símbolo de coragem, força e determinação. Estas podem dar-nos esperança bem como cor para a vida. O próprio título do poema é  uma personificação, em que as palavras surgem como se tivessem boca e nos pudessem beijar, dando ainda mais força emocional ao poder que estas têm.
(a completar)
Afonso e Alexandra

Poetas Contemporâneos (cont.)
















Definição (Nuno Júdice)

Quem esquece o amor, e o dissipa, saberá
que sentimento corrompe, ou apenas se o coração
se encontra no vazio da memória? O vento
não percorre a tarde com o seu canto alucinado,
que só os loucos pressentem, para que tu
o ignores; nem a sabedoria melancólica das árvores
te oferece uma sombra para que lhe
fujas com um riso ágil de quem crê
na superfície da vida. Esses são alguns limites
que a natureza põe a quem resiste à convicção
da noite. O caminho está aberto, porém,
para quem se decida a reconhecê-los; e os próprios
passos encontram a direcção fácil nos sulcos
que o poema abriu na erva gasta da linguagem. Então,
entra nesse campo; não receies o horizonte
que a tempestade habita, à tarde, nem o vulto inquieto
cujos braços te chamam. Apropria-te do calor
seco dos vestíbulos. Bebe o licor
das conchas residuais do sexo. Assim, os teus lábios
imprimem nos meus uma marca de sangue, manchando
o verso. Ambos cedemos à promiscuidade do poente,
ignorando as nuvens e os astros. O amor
é esse contacto sem espaço,
o quarto fechado das sensações,
a respiração que a terra ouve
pelos ouvidos da treva.
                                                               Nuno Júdice, in "Um Canto na Espessura do Tempo"
 
Nuno Júdice pede que não se ignore nem se fuja do amor porque este está como a sombra, perto mas não para fugirmos dele.
O caminho está sempre livre mas temos que reconhecer que temos limites. Devemos deixar-nos ir pelos caminhos que se abrem naturalmente até ao amor.
O poeta reconhece os seus limites mas sabe que não os deve temer.
O sentimento provocado pelo amor faz com que os versos escritos pelo poeta fiquem marcados (manchados) por esse sentimento.
No final do poema podemos encontrar uma definição que, para Nuno Júdice, é a definição de amor.

Biografia
Nuno Júdice nasceu a 29 de abril de 1949, na Mexilhoeira Grande. Licenciou-se em filosofia românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi professor do ensino secundário, diretor da revista "Tabacaria" (editada pela Casa Fernando Pessoa) e diretor do Instituto Camões em Paris. Foi também além de poeta, ensaísta e ficcionista.



Inocência (Miguel Torga)

Vou aqui como um anjo, e carregado

De crimes!
Com asas de poeta voa-se no céu...
De tudo me redimes,
Penitência
De ser artista!
Nada sei,
Nada valho,
Nada faço,
E abre-se em mim a força deste abraço
Que abarca o mundo!

Tudo amo, admiro e compreendo.
Sou como um sol fecundo
Que adoça e doira, tendo
Calor apenas.
Puro,
Divino
E humano como os outros meus irmãos,
Caminho nesta ingénua confiança
De criança
Que faz milagres a bater as mãos.

                                                                                       Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório'  
Miguel Torga, mostra o sentimento que dá título a este poema através de várias palavras religiosas como "anjo", "céu" e "milagres".
Ao longo do poema, o poeta vai usando comparações para percebermos essa sua inocência, comparando-se a um anjo "carregado / De crimes!" e a uma criança que é ingénua.
Com a expressão "abraço / Que abarca o mundo!", Miguel Torga mostra que o sentimento de ingenuidade não se aplica só a si mas a todo o mundo.
O uso da anáfora "Nada" também mostra que o poeta acha que nada sabe mas esta figura de estilo é depois contrastada com "Tudo" o que ele ama, admira e compreende.

Biografia
Miguel Torga nasceu a 12 de agosto de 1907, em Vila Real. Miguel Torga era pseudónimo para Adolfo Correia da Rocha. Foi para o Brasil com 13 anos, antes de ir para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Além de poeta foi também contista, dramaturgo e médico.
Morreu a 17 de janeiro de 1995 em Coimbra de cancro.



O Silêncio (Eugénio de Andrade)
 Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

 
O poema retrata o poder do silêncio e o que é possível "dizer" e transmitir sem entoar palavra alguma. O uso de vírgulas contínuas dá a ideia da repetição e tranquilidade criada através do silêncio, à noite, quando «o sono, a mais incerta barca/inda demora».
O poema é marcado pelo uso da personificação: "ternura fatigada", "incerta barca" e "palavras desamparadas e desertas".

Biografia (Eugénio de Andrade)
O poeta nasceu a 19 de janeiro de 1923, no Fundão. Eugénio de Andrade é pseudónimo para José Fontinhas.
Tem uma biblioteca com o seu nome e além de poeta foi escritor e tradutor.
Morreu a 13 de junho de 2005, no Porto devido a uma doença neurológica prolongada.


Márcio Leopoldo, nº 16
Maria Nazaré, nº 17



Créditos
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Poetas contemporâneos - leituras

Miguel Torga é o pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, o qual nasceu a 12 de agosto de 1907 e faleceu a 17 de janeiro de 1995 aos 87 anos; é considerado um dos escritores mais influentes do século XX, tendo recebido os seguintes prémios: Prémio Morgado de Mateus (1980); Prémio Montaigne (1981); Prémio Camões (1989); Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários (1993) entre outros.
O seu pseudónimo tem origem em 1934 como homenagem aos escritores Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno, daí o nome Miguel, e às suas origens serranas, pois Torga é o nome de uma planta brava. 
Dies Irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
                                                                    Miguel Torga
O poema “Dies Irae” trata a frustração do povo português ao ser oprimido pelo “fantasma” (regime ditatorial) por não poder realizar os seus desejos. Ao longo do poema, o autor retrata a “maldição do tempo em que vivemos” ao evidenciar ações apetecíveis (a forma verbal «Apetece» surge anaforicamente seis vezes) - cantar, chorar, gritar, fugir, morrer, matar - e que, no entanto, são proibidas.
No final do poema é apresentada diretamente a angústia vivida e a crítica do tempo do regime ditatorial, apresentado como estagnado, morto - "Sepultura", "angústias paradas".


Manuel Alegre

Escritor e político com 81 anos, nasceu a 12 de maio de 1936 e é um dos escritores mais importantes da atualidade do nosso país. Ganhou diversos prémios dos quais se destacam o Grande Prémio de Poesia APE/CTT (1998); Prémio Pessoa (1999); Prémio Fernando Namora (1999); Grande Prémio de Literatura dst (2016) e Prémio Camões (2017) .

Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.


Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.


Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói


desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.


O poema “Coisa amar” cria uma relação de intertextualidade com a escrita camoniana, sendo uma homenagem a Camões, ao amor e ao mar; através da parecença entre as palavras “mar” e “amar” é são apresentadas “as coisas perigosas” que  estas palavras têm em comum.
O poema conta com alusões/referências diretas e indiretas a Camões tais como: “Contar-te longamente as perigosas coisas do mar” (Os Lusíadas), “Amor ardente. Amor ardente” - (poema "Amor é fogo que arde sem se ver") e a referências à ilhas dos amores- “ilhas misteriosas”.

J. Lopes e Leonardo C.

15 abril 2024

11 abril 2024

Conferências "Vamos falar AR e VR"

Esta manhã, estivemos no Auditório da Escola Henriques Nogueira a assistir a conferências sobre Inteligência Artificial, Realidade Aumentada e Realidade Virtual, nomeadamente com Tiago Marques, o investigador-chefe da Equipa da Fundação Champalimaud da BREAST XR - Cirurgia com Realidade Aumentada.

À tarde houve, entre outras, uma sessão com demonstração de recursos didáticos com Óculos de Realidade Virtual.











 

10 abril 2024

MiniDoc - E depois da revolução: o que conquistaram as mulheres? | Cinco...

Maria Judite de Carvalho, "George" (um estudo sobre o conto)

 George e Seta Despedida, Maria Judite de Carvalho - Porto Editora                                                                “GEORGE”: A ERRÂNCIA EM BUSCA DA LIBERDADE

 Renata Quintella de OLIVEIRA            

(Ler artigo completo)

                                             

"George" e a questão da(s) identidade(s)

Ao iniciarmos a leitura do conto “George” percebemos, logo nas primeiras linhas, um elemento que causa estranhamento: a descrição dos vestidos daquelas que, a princípio, seriam duas personagens: “Trazem ambas vestidos claros, amplos, e a aragem empurra-os de leve, um deles para o lado direito de quem vai, o outro para o lado direito de quem vem, ambos na mesma direção, naturalmente.” (CARVALHO, 1995, p. 32).O trecho transcrito nos remete à imagem do espelho, já que os dois sujeitos que caminham têm seus vestidos empurrados em sentido contrário, mas “ambos na mesma direção, naturalmente”, como uma imagem refletida em espelho. A partir da leitura desse trecho e de tal reflexão, sugere-se a possibilidade de tratar-se de uma só pessoa e não duas como se havia imaginado antes.A questão, portanto, que nos parece ser a principal deste conto, (mas não a única) é a fragmentação da representação unitária da identidade, já que a personagem George dialoga com seu passado e com seu futuro personificados em Gi e Georgina, respectivamente. 

Diversos críticos, como o já citado Stuart Hall (2006, p. 12), apontaram para uma compreensão da identidade como algo complexo e fragmentado: “O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas.”Gi, essa suposta “outra” pessoa com quem George se encontra, revela-se como alguém mais jovem. A descrição de Gi apresenta-se extremanente difusa: faltam-lhe contornos precisos. Ora, se considerarmos Gi uma outra figuração de George, essa descrição imprecisa poderia ser explicada como o resgate pela memória, já que esta sempre recupera factos de forma difusa. George estaria, então, travando um diálogo com o seu passado, através da mediação da memória, que o resgata sem precisão. Gi seria quem George foi um dia e quer esquecer.

Para complexificar ainda mais esta questão, surge na narrativa Georgina. Agora, mais velha que George, em oposição à Gi, Georgina passa a aconselhar a artista plástica renomada. A narrativa dá diversos indícios de que se trata, de facto, de um desdobramento do próprio sujeito que finge ser outro, ao projetar-se, agora no futuro. 

 À maneira de Fernando Pessoa, Maria Judite de Carvalho constrói um ser disperso, sem unidade aparente. George aparece multifacetada e, tentando compreender-se, trava um intenso diálogo (ou monólogo?) consigo própria. O narrador apresenta ao leitor o que se passa no espaço interior de George: o confronto incessante entre esses diferentes “eus”. Tentando compreender e esquecer o que foi, George dialoga com Gi, jovem de 18 anos e ainda ingénua e inexperiente em relação às decisões importantes da vida. Tentando visualizar seu futuro, George dialoga com Georgina, senhora de quase 70 anos, já vivida, experiente e fisicamente decrépita, que não é, contudo, quem George quer ser.

Nesta busca incessante e permanente, a personagem George procura uma explicação que confira sentido à sua existência interior. Terá encontrado? Ou julga ter encontrado pelo facto de ser bem sucedida, artística e financeiramente?

Apesar das visíveis rupturas com o modelo de narrativas tradicionais, uma questão constante em “George” e que se mantém desde os tempos de Camões, é a febre de Além. Na narrativa de Maria Judite de Carvalho, essa questão apresenta-se amalgamada com outra, esta sim, atual e transgressora: a quebra de valores destinados à mulher. 

Conforme Magalhães (1994, p. 189), durante o período das grandes navegações, “[...] estabeleceu-se uma distinção entre a cosmovisão feminina e a masculina: os homens partiam e as mulheres ficavam.” A ruptura desse padrão ocorre em “George”, no momento em que a protagonista do conto deseja abandonar a sua terra e os padrões patriarcais referentes ao seu lugar de origem: “Já não sabe, não quer saber, quando saiu da vila e partiu à descoberta da cidade grande, onde, dizia-se lá em casa, as mulheres se perdem. Mais tarde partiu por além terra, por além mar.” (CARVALHO, 1995, p. 33). 

Contradizendo o condicionamento das mulheres, estabelecido durante o período áureo do povo português, Gi abandona seu lar e seus costumes, rompendo com o paradigma inerente à cultura portuguesa até meados do século XX. A saída da personagem de sua terra natal revela um desejo voraz de além, de liberdade e de reconfiguração identitária: “Fez-se loiros os cabelos, de todos os loiros, um dia ruivos por cansaço de si, mais tarde castanhos, loiros de novo, esverdeados, nunca escuros, quase pretos, como dantes eram.” (CARVALHO, 1995, p. 33-34).

 A personagem vê sua versão mais jovem de forma esfumada, como quem se recusa a enxergar sua origem, e, mais tarde, vê sua versão futura (a senhora experiente que dá conselhos) e se irrita quando esta sugere que sua visão de liberdade lhe trará solidão. Para remediar esta situação, a personagem abriga-se, por hora, em pensamentos e em determinadas certezas que só poderão vir a ser desconstruídas com a maturidade.

Ao se deparar com seu passado, aos dezoito anos, George descobre uma jovem fechada em um local enraizado, no qual o tempo parara e o acesso ao conhecimento desejado jamais chegaria. A casa dos pais e a vila circunscrevem os anseios de Gi ao casamento, à maternidade e ao exercício da pintura como distração: “E eles acham que eu tenho muito jeitinho, que hei-de um dia ser uma boa senhora da vila, uma esposa exemplar, uma mãe perfeita, tudo isso com muito jeito para o desenho. Até posso fazer retrato das crianças quando tiver tempo [...]” (CARVALHO, 1995, p. 37). 

Dessa forma, Gi seria respeitada na casa (espaço privado) e na vila (espaço público) e reproduziria o modelo feminino imposto pela sociedade na qual nascera. As relações de poder estabelecidas, nos espaços pertencentes à jovem Gi, são, para George, um profundo aprisionamento. A protagonista não é incluída ou ela mesma se exclui do modelo predeterminado.

 A busca de George: a febre de além

 Por não aceitar os espaços designados para Gi, George resolveu partir. Em busca de uma identidade, o sujeito da narrativa torna-se transgressor, rompe com as antigas relações, transforma sua aparência e habita novos espaços. Ao abandonar a sua raiz – a casa na vila – George cria asas e, ao não desejar criar vínculos, aluga casas com mobília (novo espaço privado) e adota o estilo de vida da cidade grande (novo espaço público).

Na cidade, a personagem se desenvolve cultural e economicamente. Torna-se uma profissional das artes: a pintura, que seria um hobby para Gi, transforma-se em profissão para George. Ela ganha o mundo, ao viajar para vários países. A relação de submissão, na casa dos pais e na vila, é substituída por uma relação de poder absoluto sobre si. Nesse novo espaço público e privado, a estabilidade do sujeito não depende do casamento ou dos filhos que a completarão como mulher. A possibilidade de completude se baseia nas várias experiências amorosas e realizações profissionais. O respeito adquirido não se associa ao seu caráter como exímia dona de casa, mas como alguém que multiplicou seu capital através do próprio trabalho.No encontro com Georgina, a narrativa propõe uma reflexão a respeito da efemeridade do poder numa sociedade excludente. 

De acordo com a futura versão de George, a casa mobiliada e a cidade grande não lhe farão sentido em sua velhice. Sua capacidade de produção não será mais a mesma e ela será excluída do jogo de interesses. Através da fala de Georgina, a narrativa nos deixa a seguinte questão: nessa constante troca de espaços, de valores e de ausência de determinados conhecimentos, chegará George a algum lugar?: “E, se for um pouco sensata, ou se souber olhar em volta, descobrirá que este mundo já não lhe pertence, é dos outros, dos que julgam que Baden Powell é um tipo que toca guitarra e que Levi Strauss é uma marca de calças.” (CARVALHO, 1995, p. 32). 

A vontade da personagem é o motor que impulsiona todas as suas conquistas, principalmente, a ânsia de liberdade. Por isso, George, ao optar pela não criação de laços afetivos permanentes, não quer se prender a móveis e família. Dessa forma, estará sempre pronta a partir. 

[...]

Além disso, o nome George não é um nome próprio típico de Portugal. Uma família portuguesa tradicional não nomearia um de seus membros por George, o que reafirma a negação de uma identidade originária e o desejo de ser outro. Observa-se, assim, uma diluição de fronteiras antes demarcadas, no que diz respeito às questões de género, à temporalidade (passado, presente, futuro) e aos níveis do real e do imaginário, presentes no espaço textual. 

O aparente diálogo apresenta-se, ao longo do conto, ora em itálico, representando a voz do imaginário (Gi/Georgina). “– Ninguém ouve ninguém, não sabes? Que pretendeste com a vida, mulher?” (CARVALHO, 1995, p. 38, grifo do autor), ora em redondo, representando a voz situada no real (George). Tais recursos gráficos possibilitam ao leitor uma interpretação mais precisa, no que se refere à distinção das “vozes” das possíveis personagens.

[...]

A reconfiguração identitária: o ser melancólico 

Segundo Faria (2002, p. 9-10), o conto “George”, ao revisitar um dos eixos paradigmáticos da ficção portuguesa – o partir e o ficar – “[...] inscreve a errância de um sujeito pelo mundo, capaz de viajar por dentro de si mesmo, em tempos e espaços diferenciados, desdobrando-se e dispersando-se naquela que foi, aos 18 anos (‘Gi’) e naquela que jamais gostaria de ser (‘a velha Georgina’).”

 O tempo, como vimos, é fragmentado e superposto (passado, presente e futuro se interceptam), mas também o é o espaço (espaço interior e exterior se mesclam). Os espaços externos são apresentados de forma extremamente significativa, já que, ao encontrar Gi, George está numa rua (espaço de trânsito) e, quando se defronta com Georgina, a personagem está num comboio (igualmente um espaço de trânsito). Tais espaços conectam-se perfeitamente à temática apresentada no conto, já que a personagem é uma eterna errante: parte para chegar a algum lugar, com o único intuito de, depois, novamente partir. Não se contenta com a vida começada na vila onde nascera e busca novos espaços onde, entretanto, não assenta morada permanente. O espaço de “George” é, justamente, o de um sujeito errante, que não quer se prender, quer se sentir livre. Faria (2002, p. 10) salienta que “[...] esse ser itinerante [George] rompe com o vínculo e com a tradição, cria a sua própria história e deliberadamente não quer criar raízes.”Apesar de o comportamento da personagem ser, como já vimos, uma quebra do vínculo com a tradição, um rompimento de barreiras estabelecidas secularmente, especialmente para as mulheres, George revela-se, momentaneamente, como afirma ainda Faria (2002, p. 10), “[...] um ser melancólico e fragilizado emocionalmente, instável no teatro do mundo, envolvido com vários amores que se sucedem, com ‘uma lágrima no olho direito, enquanto o outro, que esquisito, sempre se recusa a chorar’.” Desta forma, vemos que George busca (sabemos que inutilmente) “[...] auto iludir-se e diluir, euforicamente, a melancolia que poderia vir a se apoderar dela.” (FARIA, 2002, p. 11). Quando, na conversa com o seu outro eu, a velha Georgina é tomada momentaneamente pela melancolia, “George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que pôs no banco.” (CARVALHO, 1995, p. 43). Porém, como salienta Faria (2002, p. 11), esta personagem é apenas alguém que “[...] parece superar a ideia de perda, defendendo-se contra a melancolia, buscando sair de seu calabouço e encontrar a chave, julgando vivenciar o triunfo da alegria e denegando o luto.”