Total visualizações

22 fevereiro 2018

Conto "Famílias Desavindas"


Por uma dessas alongadas ruas do Porto, que sobe que sobe e não se acaba, há de encontrar-se um cruzamento alto, de esquinas de azulejo, janelas de guilhotina telhados de ardósia em escama. Faltam razões para flanar por esta rua, banal e comprida, a não ser a curiosidade por um insólito dispositivo conhecido de poucos: os únicos semáforos do mundo movidos a pedal, sobreviventes a outros que ainda funcionavam na Guatemala, no início dos anos setenta.
No dobrar do século XIX, Gerard Letelessier, jovem engenheiro francês, fracassou em Paris e em Lisboa, antes de convencer um autarca do Porto de que inventara um semáforo moderno, operado a energia elétrica, capaz de bem ordenar o trânsito de carroças de vinho, carros de bois e landós da sociedade. A autoridade gostou do projeto e das garrafas de Bordéus que o jovem engenheiro oferecia. Os semáforos estiveram ensejados para a Ponte, mas, de proposta em proposta (sempre se tratava de uma implantação experimental), acabaram na infrequentada Rua Fernão Penteado, na intersecção com a travessa de João Roiz Castelo Branco.
O sistema é simples e, pode dizer-se com propriedade, luminoso. Um homem pedala numa bicicleta erguida a dez centímetros do chão por suportes de ferro. A corrente faz girar um imã dentro de uma bobina. A energia gerada vai acender as luzes de um semáforo, comutadas pelo ciclista. Durante a Primeira Guerra foi introduzida uma melhoria. Uma inspeção da Câmara concluiu que a roda da frente era destituída de utilidade. Foi retirada.
Houve muitos candidatos ao cargo de samaforeiro, embora um equívoco tivesse levado à exigência de que os concorrentes soubessem andar de bicicleta. A realidade corrigiu o dislate porque acabou por ser escolhido um galego chamado Ramon, que era familiar do proprietário dum bom restaurante e nunca tinha pedalado na vida. Mas Ramon era esforçado, cheio de boa vontade. A escolha foi acertada. Durante anos e anos o bom do Ramon pedalou e comutou. Por alturas da segunda Grande Guerra foi substituído pelo seu filho Ximenez, pouco depois da revolução de Abril pelo neto Asdrúbal, e, um dia destes, pelo bisneto Paco. A administração continua a pagar um vencimento modesto, equivalente ao de jardineiro. Mas não é pelo ordenado que aquela família dá ao pedal. É pelo amor à profissão. Altas horas da madrugada, avô, neto e bisneto foram vistos de ferramenta em riste a afeiçoar pormenores. Fizeram questão de preservar a roda de trás e opuseram-se quase com selvajaria a um jovem engenheiro que considerou a roda dispensável, sugerindo que o carreto bastasse.
Os transeuntes e motoristas do Porto apreciam estes semáforos manuais, porque é sempre possível personalizar a relação com o sinal. Diz-se, por exemplo, «Ó Paco, dá lá um jeitinho!» e o Paco, se estiver bem-disposto, comuta, facilita. Acontece que, mesmo à esquina, um primeiro andar vem sendo habitado por uma família de médicos que dali faz consultório. Pouco antes da instalação dos semáforos a pedal, veio morar o Doutor João Pedro Bekett, pai de filhos e médico singular. Chegou de Coimbra com boa fama mas transbordava de espírito de missão. Andava pelas ruas a interpelar os transeuntes: «Está doente? Não? Tem a certeza? E essas olheiras, hã? Venha daí que eu trato-o.» E nesta ânsia de convencer atravessava muitas vezes a rua. O semáforo complicava. Aproximou-se do Ramon e bradou, severo: «A mim, ninguém me diz quando devo atravessar uma rua. Sou um cidadão livre e desimpedido.» Ramon entristeceu. Não gostava que interferissem com o seu trabalho e, daí por diante, passou a dificultar a passagem ao doutor. Era caso para inimizade. E eis duas famílias desavindas. Felizmente, nunca coincidiram descendentes casadoiros. Piora sempre os resultados.
Ao Dr. Pedro sucedeu o filho João, médico muito modesto. Informava sempre que o seu diagnóstico era provavelmente errado. Enganava-se, era um facto. Mas fazia questão de orientar os pacientes para um colega que desse uma segunda opinião. Herdou o ódio ao semáforo e passava grande parte do tempo à janela, a encandear Ximenez com um espelho colorido.
Já entre o jovem médico Paulo e Asdrúbal quase se chegou a vias de facto. O médico passava e rosnava «Sus, galego». E Asdrúbal, sem parar de dar ao pedal: «Xó, magarefe!» Uma tarde, Asdrúbal levantou mesmo a mão e o doutor encurvou-se e enrijou o passo.
Este Dr. Paulo era muito explicativo. Ouvia as queixas dos doentes, com impaciência, e depois impunha silêncio e começava: «As doenças são provocadas por vírus ou por bactérias. No primeiro caso, chamam-se viróticas, no segundo, bacterianas.» E estava horas nisto, até o doente adormecer. Colegas maliciosos sustentavam que ele praticava a terapia do sono. Mas a maioria dos doentes gostava de ouvir explicar. Alguns até faziam perguntas. Após a consulta, muito à puridade, o Dr. Paulo pedia aos clientes que passassem pelo homem do semáforo e lhe dissessem: «Arrenego de ti, galego!» Isto foi assim com Asdrúbal e, mais recentemente, com Paco.
Há dias, vinha do almoço o Dr. Paulo com uma trouxa-de-ovos na mão, e já trazia entredentes o «arrenego!» com que insultaria o semaforeiro, quando aconteceu o acidente. Ao proceder a um roubo por esticão um jovem que vinha de mota teve uns instantes de desequilíbrio, raspou por Paco e deixou-o estendido no asfalto. Era grave. O Dr. Paulo largou ódios velhos, não quis saber de mais nada e dobrou-se para o sinistrado: «Isto, em matéria de lesões, elas podem ser provocadas por três espécies de instrumentos: contundentes, cortantes, ou perfurantes.»
Uma ambulância levou o Paco antes que o doutor tivesse entrado no capítulo das «manchas de sangue».
Enganar-se-ia quem dissesse que o semáforo ficou abandonado. Uma figura de bata branca está todos os dias naquela rua, do nascer ao pôr do Sol, a acionar o dispositivo, pedalando, pedalando, até à exaustão. É o Dr. Paulo cheio de remorsos, que quer penitenciar-se, ser útil, enquanto o Paco não regressa.




Mário de Carvalho, Contos Vagabundos, Lisboa, Editorial Caminho, 2000

Lisboa - a cidade de Ulisses...

A pedido do grupo que está a trabalhar o assunto, ficam os textos da antiguidade com referência a Lisboa e ao nosso território. Retirem só o que vos interessa. São duas versões da Geografia de Estrabão. A frase inicial é de um geógrafo latino e crê-se atribuída a Lisboa. 
Solino: Ibi oppidum Ulissippo ab Ulysse conditum  
(cidade de Ulissipo aí fundada por Ulisses) 
                                                      Solino, geógrafo latino (sécs.III-IV d.C.)

 Estrabão - geógrafo, historiador e filósofo, sécs. I a.C- I d.C.

Estrabão, Geografia – Livro III[1]
Capítulo 1 – Perspectiva geral da Península. Costa meridional da Ibéria
A partir do litoral contíguo ao Promontório Sagrado* [Ponta de Sagres], por um lado é o começo do flanco ocidental da Ibéria*, até à embocadura do rio Tejo*, por outro, o do flanco meridional, até outro rio, o Anas*[nome antigo do rio Guadiana - «dos patos»], e à sua embocadura. Cada um deles flui desde as regiões orientais, mas o Tejo*, que é muito maior que o outro, do Promontório Sagrado às Colunas de Hércules lança-se directamente para o ocidente; o Anas*, por seu turno, dirige-se para sul, delimitando a terra entre rios que habitam, na sua maior parte, Célticos* e alguns dos Lusitanos* banidos do outro lado do Tejo* pelos Romanos*. Nas regiões do interior vivem Carpetanos*, Oretanos* e um grande número de Vetónios*. Esse território é moderadamente privilegiado, mas o contíguo, a nascente e a sul, não deixa por certo de estar em vantagem, distinguindo-se de todo o mundo habitado graças à sua fertilidade e aos bens da terra e do mar. Esta é a região que o rio Bétis* atravessa, o qual tem origem nos mesmos locais donde provêm o Anas* e o Tejo*, e se encontra a meio dos outros dois quanto ao tamanho. De modo semelhante ao Anas*, corre a princípio para oeste; depois volta-se para sul e desagua na mesma costa que aquele. A partir do nome do rio, chamam Bética* à região; a partir dos seus habitantes, Turdetânia*. Designam os habitantes como Turdetanos* e também como Túrdulos*, pensando uns que são os mesmos e outros que são distintos (entre estes está Políbio, ao afirmar que os Túrdulos* são vizinhos dos Turdetanos*, a norte; mas neste momento, nenhuma distinção se revela entre eles. Estes são classificados como os mais cultos entre os Iberos*: de facto, não só utilizam escrita, como têm registos da história antiga, poemas e leis em verso com seis mil anos, como afirmam (também os outros Iberos* utilizam a escrita, mas não de um único tipo, nem, de facto, de uma única língua. Esta região deste lado do Anas* estende-se para este até à Oretânia* e para sul até à costa entre a embocadura do Anas* e as Colunas*. Sobre ela e sobre as que lhe são próximas, no entanto, é preciso expor com mais delonga aquilo que contribui para o conhecimento das vantagens naturais e da prosperidade desses territórios


[1] In Repositório da Universidade de Coimbra. Disponível em  https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/39957/1/Estrabao.pdf


1. Seguindo agora, partindo sempre do Promontório Sagrado ([i][i]), a outra parte da costa, a que se dirige para o Tejo, observa-se a princípio que a praia se encurva formando um golfo; depois segue-se o Promontório Bárbaro ([ii][ii]), e logo após este a foz do Tejo: a travessia do dito golfo em linha recta até à foz do Tejo é de 1000 estádios.
Nesta parte da costa há também estuários. Destes, mencionaremos especialmente um, que, partindo do promontório acima nomeado, se interna por mais de 400 estádios e [pode levar os navios até Salácia ([iii][iii])]. O Tejo, com 20 estádios de largura na sua foz, tem ao mesmo tempo bastante profundidade para que os maiores transportes do comércio o possam subir. Forma dois esteiros nas planícies, que marginam o rio, todas as vezes que há marés vivas, de tal modo que inunda esses campos numa extensão de 150 estádios e os torna navegáveis. Destes dois lagos ou esteiros que o Tejo forma, o que está situado mais acima contém uma pequena ilha de quase 30 estádios de comprimento e outro tanto de largura, notável pela beleza dos seus olivais e vinhedos. Esta ilha vê-se na altura de Morão, cidade bem situada sobre um monte, muito próximo do rio, a quase a 500 estádios do mar, rodeada de férteis campinas, com grande facilidade de comunicação pela via fluvial, porque os maiores navios podem subir o rio numa boa parte do seu curso. De resto, é navegável ainda mais longe acima de Morão, pelo que de Morão ao mar conserva-se navegável às barcas e outras embarcações fluviais. Foi esta cidade que Bruto, denominado o Calaico, escolheu para base de operações na sua campanha contra os Lusitanos, que terminou como é sabido pela derrota destes povos. Além disso, fortificou Olisipón ([iv][iv]) que é pela sua posição a chave do rio, com o fim de dominar o seu curso, e de poder sempre fazer chegar por esta via até ao seu exército as provisões necessárias. Assim, estas duas cidades são as mais fortes entre as que marginam o Tejo. Este rio, além de mui piscoso, abunda também em mariscos. Nasce entre os Celtiberos e atravessa sucessivamente o país dos Vetões ([v][v]), e os dos Carpetanos ([vi][vi]) e dos Lusitanos, dirigindo ao Ocidente equinocial. Até um certo ponto do seu curso corre paralelamente ao Anas e ao Bétis; mais longe, porém, afasta-se deles, correndo estes rios então para a costa meridional.
[...]

6. Os Lusitanos, segundo consta, são excelentes para armar emboscadas e descobrir pistas; são ágeis, rápidos, dextros. O escudo de que se servem é pequeno, só com dois pés de diâmetro, a parte anterior é côncava; trazem-no suspenso ao pescoço por correias, não se vê um só com braçadeiras ou fivelas. Armam-se com um punhal ou gládio. A maioria tem couraças de linho; outros, mas em pequeno número, usam cota de malha e o capacete de tríplice cimeira; em geral os capacetes são de couro. Os peões têm também polainas de curo, e cada um leva muitos dardos compridos na mão; alguns servem-se de lanças com ponta de bronze. 

Versão do Capítulo III do Livro III da Geografia de Estrabão, relativo à Lusitânia, disponível em http://malomil.blogspot.pt/2012/11/lusitania-de-estrabao.html



[i] Ponta de Sagres.


[ii] Cabo Espichel.


[iii] Alcácer do Sal.


[iv] Lisboa.