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06 março 2018

Memórias (Gabriel García Márquez)




"Até a adolescência, a memória tem mais interesse no futuro que no passado, e por isso minhas lembranças da cidadezinha ainda não estavam idealizadas pela nostalgia. Eu me lembrava de como ela era: um bom lugar para se viver, onde todo mundo conhecia todo mundo, na beira de um rio de águas diáfanas que se precipitavam num leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. 
Ao entardecer, sobretudo em dezembro, quando passavam as chuvas e o ar tornava-se de diamante, a Serra Nevada de Santa Marta parecia aproximar-se com seus picos brancos até as plantações de banana, lá na margem oposta. Dali dava para ver os índios aruhacos correndo feito formiguinhas enfileiradas pelos parapeitos da serra […]. 
Nós, meninos, tínhamos então a ilusão de fazer bolas com as neves perpétuas e brincar de guerra nas ruas abrasadoras. Pois o calor era tão inverosímil, sobretudo durante a sesta, que os adultos se queixavam dele como se fosse uma surpresa a cada dia. Desde o meu nascimento ouvi repetir, sem descanso, que as vias do trem de ferro e os acampamentos da United Fruit Company foram construídos de noite, porque de dia era impossível pegar nas ferramentas aquecidas pelo sol.
A única maneira de chegar de Barranquilla a Aracataca era numa destrambelhada lancha a motor, por um canal cavado à mão de escravo durante a colônia, e depois através de um vasto pantanal de águas turvas e desoladas, até a misteriosa cidade de Ciénaga, que também quer dizer lamaçal. Ali pegava-se o trem que em suas origens tinha sido o melhor do país, e nele se fazia o trajeto final pelas imensas plantações de banana, com muitas paradas ociosas em aldeolas poeirentas e ardentes, e em estações solitárias. Foi esse o caminho que minha mãe e eu fizemos às sete da noite do sábado 18 de fevereiro de 1950 — véspera de carnaval — debaixo de um aguaceiro diluviano e temporão e com trinta e dois pesos em dinheiro que mal e mal seriam suficientes para regressar se não vendêssemos a casa nas condições previstas. Os ventos alísios estavam tão bravos naquela noite que no porto fluvial tive muito trabalho em convencer minha mãe a embarcar. Não lhe faltava razão. [...]
Como à última hora não encontramos nenhum camarote livre, nem tínhamos redes, minha mãe e eu tomamos de assalto duas cadeiras de ferro do corredor central e nelas nos dispusemos a passar a noite.
Tal como ela temia, a tormenta espancou a temerária embarcação enquanto atravessávamos o rio Magdalena, que a tão curta distância de seu estuário tem um temperamento oceânico. […] Minha mãe agarrou-se ao seu rosário de três voltas como se fosse um cabresto capaz de desencalhar um trator ou segurar um avião no ar, e seguindo seu costume não pediu nada para ela, mas prosperidade e vida longa para seus onze órfãos. Sua súplica deve ter chegado no destino certo, porque a chuva amansou assim que entramos no canal e a brisa leve soprou para espantar os mosquitos. Minha mãe guardou então o rosário e durante um longo tempo observou em silêncio o fragor da vida que transcorria à nossa volta.”



Gabriel García Marquez. Viver para contar*. Rio de Janeiro: Record, 2003.


*Em Portugal, esta autobiografia designa-se Viver para contá-la e está disponível na nossa Biblioteca.


1ª  Imagem: Garcia Márquez nos tempos do Liceu.

Cinco histórias que talvez desconheça sobre "Cem anos de solidão"


Gabriel Garcia Maquez - "Cem anos de solidão" e outros livros


 Livros do Prémio Nobel Gabriel Garcia Marquez 
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Gabriel Garcia Márquez - memórias de Lisboa

Gabriel García Márquez faria hoje 91 anos
"No Verão Quente de 1975, Gabriel García Márquez veio passar duas semanas a Portugal. Encontrou-se com escritores e poetas [...] e escreveu três reportagens [...]

 O postal de García Márquez chegou ao destino três semanas depois de enviado. Era uma fotografia da Ponte 25 de abril, com o Cristo Rei em fundo, e dizia apenas isto: «Lisboa é a maior aldeia do mundo. Quando chegar, conto-te desta revolução.» 
                Juan Gossaín - um dos mais notáveis jornalistas colombianos e amigo do escritor desde os anos cinquenta - recebeu o correio na sua casa de Cartagena de Índias e não pôde deixar de sorrir. Gabriel, a quem trata carinhosamente por Gabo, tinha chegado à Colombia muito antes da correspondência.[...] 
               García Márquez aterrou no aeroporto da Portela no primeiro dia de junho de 1975, proveniente de Roma. «Tive a sensação de estar a viver de novo a experiência juvenil de uma primeira chegada. Não só pelo verão prematuro em Portugal e pelo odor a marisco, mas também pelos ventos e pelos ares de uma liberdade nova que se respiravam por toda a parte.»  
              [...] «Por esta altura já tinha escrito Cem Anos de Solidão, era um romancista reputado [...] «Viajava pelo mundo fora, ou a promover a sua obra ou em reuniões de trabalho. E às vezes ficava mais dois ou três dias num sítio para fazer peças jornalísticas.» Em Portugal, permaneceu duas semanas. [...]
                  «Lisboa é uma das mais belas cidades do mundo e, até há um ano, era também uma das mais tristes, por obra de uma rara ditadura medieval que durou quase meio século e cuja força se fundava numa polícia política inclemente. É um país de pobres que enfrenta obstáculos terríveis e uma pressão tremenda. Por causa da sua posição geográfica, está obrigado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos e sofisticados do mundo.»[...]
«Toda a gente fala e ninguém dorme, às quatro da manhã de uma quinta-feira qualquer não havia um único táxi desocupado. A maioria das pessoas trabalha sem horários e sem pausas, apesar de os portugueses terem os salários mais baixos da Europa. Marcam-se reuniões para altas horas da noite, os escritórios ficam de luzes acesas até de madrugada. Se alguma coisa vai dar cabo desta revolução é a conta da luz.»"
                  A amizade mais estreita de Gabo em Lisboa era, no entanto, com o autor de Balada da Praia dos Cães [José Cardoso Pires]. Tinham-se conhecido anos antes em Londres, quando ambos trabalhavam para o serviço internacional da BBC."
 O escritor e jornalista português José Cardoso Pires com Gabriel Garcia Marquez, em Lisboa, 1975

 In Diário de Notícias (ver artigo completo)

Memória (Isabel Allende)


... À TUA ESPERA NA BIBLIOTECA DA HENRIQUES!
 ... À TUA ESPERA NA BIBLIOTECA

02 março 2018

Frei Luís de Sousa (testes)

Orçamento Participativo...e agora?

ORÇAMENTO PARTICIPATIVO DAS ESCOLAS


Até final do mês de fevereiro os alunos apresentam as suas ideias na secretaria da sua escola.

A partir de 8 de março, 
5ª feira



 A partir do dia 8 de março a escola promoverá a divulgação e o debate das propostas apresentadas pelos alunos.

23 março, 6ªf. 
(Dia do Estudante é a 24 março, sábado)





Por altura da celebração do dia do Estudante terá lugar a votação das propostas. Ou seja, os alunos vão escolher democraticamente o projeto que vai avançar na sua escola.