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26 abril 2018

Poetas contemporâneos - propostas de leitura.2

Biografia Miguel Torga:
Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, nasce a 12 de Agosto de 1907 em São Martinho da Anta, Trás-os-Montes. Estuda no ano de 1918 no seminário de Lamego porém não se adapta ao colégio, viaja para o Brasil com apenas 13 anos, para trabalhar na fazenda de um tio, em Santa Cruz, no Estado de Minas Gerais.
Retorna a Portugal em 1925, faz o Liceu e, em 1928, além de se matricular na Universidade de Coimbra, publica o seu primeiro livro "Ansiedade". Em 1934 usa pela primeira vez o pseudónimo Miguel Torga ao publicar o livro em prosa "A Terceira Voz";graça devido às críticas à ditadura fascista implantada na Espanha pelo general Francisco Franco contidas na obra "O quarto dia...", é preso em 1940. Torga teve também alguns dos seus livros apreendidos pela Censura dado que se opunha abertamente à ditadura Salarazista. Após a queda de Salazar presidiu à primeira reunião do órgão regional do centro do Partido Socialista, nunca se tendo filiado a em nenhum partido por não concordar com as suas ideologias. Torga falece em Coimbra no dia 17 de janeiro de 1995.
Nas suas obras é tratado predominantemente o "homem" e as suas relações, harmoniosas ou não, com a terra e com o mundo. “A morte e a solidão também são temas constantes nos seus textos, que revelam não só a amplitude universal do poeta, mas também a consciência da brevidade humana.” Talvez o frequente contacto com a doença e a morte, fruto da sua profissão de médico, tenha acentuado esta linha de reflexão.

                                                                                           Alexandre O'Neill

“Dies Irae”(1)
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

                                Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

No poema Dies Irae, de Miguel Torga é verdadeiramente importante destacar 3 vocábulos que são várias vezes repetidos: apetece, mas e ninguém; e devemos interpretá-los de forma sequencial porque no início, depois da palavra apetece, é descrito um desejo de cantar, chorar, gritar, fugir, morrer, e matar e, logo depois, é introduzida uma conjunção adversativa, mas, que tem como sentido a oposição entre duas realidades: o ideal que era o de atuar e a realidade de que ninguém faz nada. 
Este «ninguém» refere-se à sociedade em geral que está impedida de se exprimir. Este facto deve-se ao regime fascista existente no tempo da escrita, que é representado por um fantasma, ser opressivo, associado à ideia de opressão através da metáfora «A mão do medo», figura que cria obstáculos à evolução - «Um fantasma limita/Todo o futuro a este dia de hoje». 
Tudo isto cria no sujeito poético uma imensa frustração e revolta; encara o mundo como uma prisão que o oprime e o deixa-o desesperado. É assumida, em toda a obra, uma atitude de protesto sobre o tempo em que se vive, onde nada é feito e está tudo dominado pelo fantasma do medo. 


(1) dies irae - locução latina que significa "dia de ira". Com sentido religioso, o Dia do Juízo Final.


“Viagem”
Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé do marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar,
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

                                            Miguel Torga, Câmara Ardente

O poema "Viagem", de Miguel Torga, é uma metáfora para a vida do homem porque tal como o marinheiro que parte para a aventura no seu barco, o poeta embarca com vontade para enfrentar a vida e de traçar o seu rumo ultrapassando adversidades como acontece em pleno alto mar. [...] A analogia assenta em palavras do campo lexical da marinhagem - «aparelhei», «barco», «marinheiro», «mar», «vela», «cais», «embarcação» e «ondas», que associamos ao título - viagem.
O sujeito poético caracteriza-se como sendo aventureiro, enfrentando a incerteza e os riscos da sua «viagem»; também é determinado na luta pelas suas ambições sempre com muita esperança e consegue ser ainda sonhador na procura do «velho paraíso» perdido que simboliza a felicidade. 
“Em qualquer aventura,/O que importa é partir, não é chegar”, esta é a ideia-chave com que o poeta conclui o poema, querendo dizer que o principal de qualquer aventura ou viagem é a partida e não importa o destino. 
Na sua poesia, Miguel Torga revela ter a missão de manter vivo o sonho e de alertar para que enquanto temos a oportunidade de viver devemos ir mais além e assim dar sentido à existência humana. Este poema remete-nos para a literatura camoniana mas principalmente para a sua grande obra Os Lusíadas quando ele retrata a condição humana. 

 “Amigo”
                                                                                                                                                              BLINOVA Anastasia

 Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

“Amigo” 
O poema Amigo, de Alexandre O’Neill retrata o tema da amizade através de metáforas e em todo o poema são apresentadas várias definições de amigo. O sujeito poético começa por dizer como é a primeira vez que se conhece alguém e a partir daí tenta explicar o que é ser amigo, no seu entender. Diz que é uma alegria, é ser uma pessoa transparente, confiável, prestável, que oferece à vontade, conforto e é como se pusesse o seu próprio coração ao nosso dispor. Já a meio, o poeta dirige-se, entre parêntesis, aos inimigos, àqueles que considera desprezíveis e logo a seguir faz uma tautologia para reforçar essa mesma ideia - "«Amigo» é o contrário de inimigo!". Volta de novo à noção de amigo dizendo que é aquele que é capaz de corrigir os nossos erros e não faz como outros que que nos perseguem e exploram meros erros. 
“Amigo vai ser, é já uma grande festa”, é assim que a obra encerra, deixando esta ideia de que ao início a amizade é mais retraída, com mais timidez e pouco tempo depois deixa de ser isso e passa a ser uma alegria, uma comemoração, uma festa. Este poema remete para os sonetos camonianos quando Camões tenta definir o tema do Amor, pois assenta na anáfora, aqui através da reiteração da palavra «Amigo» e da forma verbal «é», e na enumeração.



Biografia| Alexandre O'Neill
Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões nasceu no dia 19 de Dezembro de 1924 em Lisboa. Depois de concluir o Liceu, frequentou a Escola Náutica de Lisboa. Foi um dos fundadores do “Movimento Surrealista de Lisboa” e publicou a sua primeira obra nesta corrente, “A Ampola Miraculosa”, em 1948; contudo o grupo rapidamente acabou. As influências surrealistas permaneceram nas suas obras, que além dos livros de poesia incluem prosa, discos de poesia, traduções e antologias.
O autor alarga a sua acção à publicidade. É da sua autoria o lema publicitário «Há mar e mar, há ir e voltar». Foi várias vezes preso pela PIDE. Viu-se reconhecido como poeta em 1958, com a edição de “No Reino da Dinamarca”. Na década de 1960, foi publicando livros de poesia, traduções e antologias de outros poetas . Em 1976, sofreu um ataque cardíaco, que admitiu dever-se à vida desregrada.  O'Neill morreu em Lisboa, a 21 de agosto de 1986.


Henrique S.
A. Cristo

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